Três festivais mineiros resolveram dar outros significados à palavra “solo” nas artes. O termo é ligado a apresentações com uma única pessoa em cena, característica que  une o BH In Solos, o Curta Dança e a Rede Sola de Dança.  Em tempos de pandemia, estas mostras viram que unir forças é o melhor caminho.

“Vim do coletivo, do trabalhar junto. Sempre tive isso comigo enquanto artista. Este desejo de sempre agregar mais pessoas é o que marca este circuito, somando o capital afetivo que cada um tem”, registra Robson Vieira, do BH In Solos. A ideia é promover trocas, especialmente sobre o processo criativo.

Com início nesta quinta, a programação acontecerá de forma virtual, durante três semanas. A intenção dos organizadores é quebrar a ideia de que os festivais estão circunscritos a um determinado lugar. No mundo virtual, isso fica ainda mais fácil. Os espectadores serão estimulados a percorrer os canais de YouTube de cada mostra.

Estão previstos nove espetáculos inéditos de teatro, dança e performance, todos inéditos em Minas Gerais. Uma das grandes apostas do BH In Solos é a apresentação de “Manifesto Transpofágico”, da atriz e dramaturga trans Renata Carvalho, que será exibido na abertura, às 19h, no canal do festival.

Atento às pautas urgentes da cena contemporânea, o Circuito traz desde discussões sobre a questão racial e da dança inclusiva ao debate sobre gênero. Em seu espetáculo, Renata faz um manifesto que narra, com o corpo da artista, sua “transcestralidade”.

Outro exemplo é “BiChobicHa”, em que Nadja Kai Kai trata de estereótipos e representações das pessoas LGBTQIA+, influenciadas pela estética do universo DragQueen. “EBÓ” de Morena Nascimento, solo- homenagem ao capoeirista e dançarino negro Eusébio Lobo e sua importância para a cultura brasileira.

Censura
Após ser censurada pelo polêmico solo “O evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, retirado da programação do Festival de Inverno de Garanhuns em 2018, Renata voltou à cena, no ano seguinte, com “Manifesto “Transpofágico”. Ela define o espetáculo como uma pesquisa viva e uma resposta ao que aconteceu com o trabalho anterior.

“Eu percebi que a censura não era direcionada  a mim, mas sim para a travesti que interpreta Jesus, independentemente de quem era. Tratava-se de uma exclusão e uma censura ao corpo trans, fruto de uma construção social, midiática, patológica, carnavalesca, criminal e religiosa que permeia o senso comum brasileiro do que é ser uma travesti”, salienta.

Ela conta, por meio de fatos, a historicidade do corpo trans. “O ‘Manifesto’ é a minha junção como transpóloga – antropóloga trans – e artista, transformando este material em poesia”, destaca Renata, lamentando um triste número: o Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo.

“Também somos o país que mais consome pornografia travesti, além de o suicídio ser a segunda causa de morte de pessoas trans. Nossa vida média é entre 27 e 35 anos, com 90%  caindo na prostituição compulsória”, relata Renata, que  está levando a sua pesquisa para o cinema – um longa tem estreia prevista para este ano.