GRAMADO – “Minha imaginação é muito fértil”, assinala Cléo Pires ao comentar se já tinha se concebido como uma espiã da CIA antes de assumir este papel em “Legalidade”, filme exibido no Festival de Cinema de Gramado e que acompanha um momento chave na trajetória do político Leonel Brizola. Quando era governador do Rio Grande do Sul, em 1961, ele enfrentou militares e apoiou a posse do vice João Goulart como presidente do Brasil, após a renúncia de Jânio Quadros.

Presente com um chamativo vestido de plumas no tapete vermelho do Palácio dos Festivais, que também recebeu vários políticos para a sessão especial, como o ex-presidenciável Ciro Gomes, Cléo diz que se “imaginou nestes lugares” e que prontamente aceitou o convite do diretor Zeca Brito para viver a espiã.

“Quando ele me falou do projeto, eu já disse que queria participar. Sempre fui apaixonada pelo Brizola e falei para ele que poderia usar o meu nome (para captação de recursos)”.

Diretor e atriz se conheceram durante as filmagens de “O Tempo e o Vento” (2013). Ele era assistente de direção e Cléo fazia par romântico com Thiago Lacerda, na pele de Ana Terra. Lacerda, aliás, está no júri de longas-metragens da edição atual. 

A filha de Glória Pires foi sempre a primeira opção do cineasta gaúcho, que comemorou na época o fato de ter um alguém de nome que acreditava no projeto, fundamental para a abertura de portas.

Em “Legalidade”, a atriz tem tórridas cenas de amor – numa delas, no telhado do palácio do governo – com Fernando Alves Pinto. Ele interpreta um antropólogo apoiador de Brizola, numa parte pouco aceita por alguns críticos e jornalistas pela incorporação dele a um triângulo amoroso ficcional na história, envolvendo dois irmãos aliados de Brizola e a espiã. “A História do Brasil é uma telenovela dos anos 60. A teledramaturgia é uma linguagem próxima do brasileiro”, justificou Brito.

A escalação da atriz integra esta estratégia: “Cléo é um símbolo popular. Era muito importante colocá-la fazendo o discurso do filme, sobre as diferenças formarem a democracia”, explica o realizador, filiado ao PDT, partido fundado em 1979, após a abertura política, por nomes como Brizola e Dilma Rousseff. O político, que ainda governaria o Rio de Janeiro na década de 1980, é interpretado por Leonardo Machado, falecido no ano passado em função de um câncer.

Brito destaca que o tom folhetinesco tem uma função histórica na trama. “A gente traz esses elementos de afeto porque talvez a história ficasse muito pesada sem eles. Criamos falas que têm uma profundidade política. Imagine 14 dias (de tensão), em que está de frente à morte e sem saber se sairá vivo daquilo. Eu acho que o mais básico do ser humano é o estabelecimento destes vínculos de afeto. Não consigo imaginar a vida sem amor”, pondera o realizador.

O diretor também sublinhou o fato de abordar um acontecimento pouco tratado nos livros de História. “A legalidade é a grande história que ninguém contou. Por que não aprendi sobre isso na escola? As histórias que são preservadas são as oficiais, as dos vencedores. Se, naquele momento, o fato é demonizado, passa a ser entendido como ilegítimo. Este episódio é importante para conhecer a maturidade de Brizola, a explosão dele como político”.

Pai do cineasta, o veterano ator Sapiran Brito, que vive Brizola em seus últimos momentos (o político morreu em junho de 2004, de infarto agudo do miocárdio) faz uma relação com o momento atual do país, ao dizer que o filme serve para “iluminar este instante de obscurantismo que estamos vivendo”. 

Destaca ainda que, diante da falta de memória dos brasileiros, “Legalidade” tem uma “missão cumprida como um discurso político sobre o último grande líder brasileiro”.

(*) Repórter viajou a convite da organização do Festival de Gramado