Um encontro para lançamento de livro em Contagem, nesta quarta-feira (30), motivou o intercâmbio entre diferentes culturas e credos. Para a abertura, o “Hino de Israel”, em hebraico, foi interpretado pelos integrantes espíritas do Coral de Emmanuel, da Fundação Caminho, Verdade e Vida. Na fila para os autógrafos, brasileiros católicos, evangélicos, outros espíritas e brasileiros judeus. E no centro das atenções, uma senhora holandesa de olhos claros, que aos 86 anos apresenta as próprias memórias no livro “Eu Sobrevivi ao Holocausto: O Comovente Relato de Uma das Últimas Amigas Vivas de Anne Frank" (Universo dos Livros).

Ela é Nanette Blitz Konig radicada no Brasil desde 1953. No evento, a autora judia conversou com adolescentes estudantes da Escola Municipal Anne Frank e com frequentadores do centro de compras. O aplauso foi generoso em vários momentos - ao subir ao palco para falar das lembranças na 2ª Guerra Mundial, ao caminhar pelas lojas e ao entrar em uma livraria, onde se emocionou ao falar da família que perdeu em um campo de concentração.

“Para mim não é uma alegria, é uma missão falar sobre isso”, diz ao Hoje em Dia, a autora, radicada em São Paulo há vários anos. Ela conheceu a jovem autora do livro que hoje é best-seller, “O Diário de Anne Frank”, em uma escola pública, em Amsterdã. “Anne era muito viva, alegre. Eu vi o primeiro diário. Eu fui ao aniversário dela. Ela tinha ganhado um diário dos pais. Daí, ela começa a escrever”, lembra-se.

Nanette diz que no campo de concentração, Anne contraiu tifo e que a maioria das pessoas que contraíram a doença não sobreviveu. “Eu também contraí, mas quando os casos já eram menos sérios. Mas nós não tivemos tratamento algum. Ou se morria ou se sobrevivia”, lembra, sobre o que ela e seu povo sofreram. “Mas hoje a vida continua”, avisa ela, que planeja publicar o livro em inglês.

A autora diz que tinha “uma vida normal” até a Guerra. “Com a guerra tudo mudou do dia para a noite”. Mas de tudo isso, resta uma lição. “Que a gente assuma a vida do jeito que ela se apresenta para nós”, ensina. Nanette trabalhou como economista, tradutora e intérprete. Ela é mãe de três filhos, dois netos e quatro bisnetas.

 

Hoje em Dia

SEM PRECONCEITOS - Isabela Vaz, Délcio Filho e Fernanda Lima (de branco), do Coral de Emmanuel. Bárbara Missena e Juliana Domingues (com livros nas mãos, vestindo preto). Ao centro, Nanette Blitz Konig. Crédito: Ricardo Bastos/Hoje em Dia

 

A diversidade que ensina

Mas como uma história em um tempo distante, e em países de culturas igualmente distantes, pode tocar tão profundamente aos brasileiros? “O que um menino do bairro Confisco tem a ver com uma menina judia que foi perseguida?”, compara a diretora da escola que leva o nome da amiga de Nanette, Sandra Mara de Oliveira Vicente.

A diretora afirma que a identificação com Anne Frank é pela “limitação de direitos, pela exclusão social". “Nossa escola está em uma área de vulnerabilidade social. Há o preconceito pelo fato de os alunos morarem em uma periferia. E Anne Frank também sofreu preconceito, mas por ser judia. É uma interconexão de histórias”, diz Sandra Mara.

“A questão do holocausto não é uma questão religiosa, é uma questão histórica”, explica a farmacêutica Isabela Vaz, integrante do Coral de Emmanuel. Ela observa que as culturas e religiões acabam se encontrando em algum ponto. Por exemplo, diz ela, o judaísmo é precursor do cristianismo, e o espiritismo, por sua vez, é cristão. A instituição espírita da qual faz parte está sediada no bairro de Santa Tereza, Região Leste de BH.

Na fila, com um livro na mão, a estudante Juliana Domingues, 16 anos, diz que leu “O Diário de Anne Frank” e que se emocionou muito com as histórias da menina autora, que morreu em um campo de concentração. O livro ela encontrou na biblioteca da escola. Juliana é evangélica. A amiga dela, Bárbara Missena, católica, também estava com um exemplar do livro para que fosse autografado.

A cena pacífica é bonita de se ver. E pensar que em alguns países mergulhados em conflitos terroristas como se vê diariamente nos noticiários, talvez não fosse possível assistir a um encontro semelhante... Ali, enquanto esperam para pegar uma dedicatória e um abraço da sobrevivente, todos se apresentam respeitosamente, conversam. As histórias deles servem de base para um diálogo civilizado, sem marras e sem o imperativo de que um tenha razão sobre o outro.

“Nosso lema é caminhar em paz, independentemente da cor da pele, raça, crença, nacionalidade. Isso, por nos considerarmos todos irmãos”, diz sobre a fundação da qual participa, a advogada Fernanda Lima, também integrante do Coral.

 

 

Alguns tópicos biográficos sobre Nanette

- Nanette Blitz Konig nasceu em 6 de abril de 1929, em Amsterdã, Holanda. Sua família era de origem judia e seu pai trabalhava no Banco de Amsterdã.

- A partir de maio de 1940, a Holanda foi ocupada pelo exército alemão e os nazistas começam a perseguir os judeus. No início de outubro de 1941, os alunos judeus tinham que frequentar escolas separadas e é nessa ocasião que Nanette torna-se colega de classe de Anne Frank, no Liceu Judaico.

- Em setembro de 1943, a família Blitz é presa e levada para o campo de transição de Westerbork. Em 15 de fevereiro de 1944, eles são deportados para o campo de concentração de Bergen-Belsen.

- Em janeiro de 1945, Nanette é enviada para outra parte do campo de Bergen-Belsen, conhecida como campo pequeno para mulheres. De lá, ela vê Anne no chamado "campo grande de mulheres", através da cerca de arame farpado. Estes dois campos tornam-se um só, depois que a cerca de arame farpado é retirada, em fevereiro de 1945. Nanette procura por Anne e encontra com ela e sua irmã, Margot.

- No final de novembro de 1944, o pai de Nanette morre de exaustão e doenças. No início de dezembro, o irmão de Nanette e sua mãe são transferidos de Bergen-Belsen e ela permanece sozinha.

- Sua mãe morre no trem cinco dias depois de partir e seu irmão morre no campo de concentração de Oranienburg.

- Nanette sobrevive a Bergen-Belsen e é salva pelo major britânico Leonardo Berney. Depois da guerra, ela passou três anos hospitalizada por ter contraído tifo, doença que matou Anne Frank. Nesta época, ela recebe do pai de Anne, Otto Frank, um exemplar do livro escrito pela filha, “Het Achterhuis” (O Anexo Secreto).

- Quando se recuperou, foi morar na Inglaterra, onde conheceu o atual marido, John Konig, que é húngaro. Em 1953, os dois se casaram e mudaram para o Brasil logo em seguida.