Mesmo com atores famosos como Norma Bengell e Jardel Filho encabeçando o seu elenco, “Antes, o Verão” (1968) acabou parando na prateleira dos filmes ignorados por décadas. Até que Hernani Heffner, curador da cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, curioso com o título que estampava as latas de uma cópia, resolveu exibi-lo em meio a uma mostra de produções desconhecidas, em 2005.
 
Foi assim que o cinema de Gerson Tavares, diretor fluminense hoje com 89 anos, se reencontrou com as salas de exibição e também com uma nova geração de críticos de cinema. Uma cópia restaurada de “Antes, o Verão” - adaptação do livro homônimo de Carlos Heitor Cony - foi apresentada em primeira mão durante a 10ª edição da Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP), que encerra hoje (22) a sua programação na cidade histórica.
 
Realizador que estudou numa das principais escolas de cinema da Europa (o Centro Sperimentale di Cinematografia, em Roma), nas décadas de 60 e 70, Gerson absorveu características da produção que questionava, na época, a burguesia com doses de angústia e crise existencial, perceptíveis nos trabalhos do italiano Michelangelo Antonioni e do francês Claude Chabrol, por exemplo. Jardel Filho faz o protagonista, Luís, que se refugia numa casa de praia em Cabo Frio.
 
Incomodado com a pressão exercida por seu sogro (Paulo Gracindo) e pela carência da mulher, Maria Clara (Norma Bengell), que não compreende a necessidade de Luís em buscar distância da cidade grande. O cenário de sol, areia e vento acaba lentamente rompendo nas engrenagens da relação, a partir de uma narrativa em flashback, quando um morador de rua é atropelado e morre nas proximidades da casa de veraneio.
 
Logo fica claro que Luís e Maria Clara têm algum envolvimento na morte, mas esse detalhe só aumenta o interesse pela história, tragando os personagens para uma areia movediça. Soturno e desesperançoso, “Antes, o Verão” tem uma excelente direção de atores, mas uma de suas opções certamente provocará risos nas novas audiências, na maneira exagerada como encena os momentos de tensão sexual, reforçados por uma montagem mais fragmentada.