A evolução do primeiro “Como Treinar o Seu Dragão” para o terceiro, que entra em cartaz a partir de amanhã nos cinemas, remete ao arco dramático criado ao longo da série do bruxinho Harry Potter, em que o personagem surge embalado numa história de descoberta, com narrativa mais infantil, e com o passar dos filmes, ganha maturidade e nuances mais afeitas ao público adulto.

Depois de provar o seu valor no primeiro longa-metragem, ao fazer amizade com o mais temido dos dragões, e de convencer toda a tribo de vikings que ela pode conviver pacificamente com os cuspidores de fogo, na segunda parte, agora o protagonista Soluço tem a sua grande prova para se tornar o rei que um dia duvidaram: o enfrentamento da perda, em seus mais diversos sentidos.

É um filme triste, pesaroso, em que os momentos de humor são raros, ajudando muito pouco a tirar o ar denso da narrativa. Aspectos que são incomuns a produções de animação e, em especial, em continuações nesta técnica, que buscam apenas criar variações em torno do mesmo enredo. Já “Como Treinar o Seu Dragão 3” é muito diferente, apresentando um quê operístico que pode não agradar tanto aos baixinhos.

Nos últimos 30 minutos de projeção, a trilha sonora é incessante (muitas vezes, até passando do ponto), não dando respiro ao turbilhão que se passa na mente de Soluço, em que cada vez mais se vê responsável pela vida de seu povo e, principalmente, dos muitos dragões que ajudou a proteger. O vilão, o caçador Grimmel, é bastante realista, talvez um dos mais perversos da animação recente.

O prazer de Grimmel (e isso é dito com todas as letras) é só o de matar, em exterminar uma outra raça. Numa época em que a questão da tolerância volta a ser discutida, o filme ganha um contexto especial, ao assinalar que os homens não estão preparados para conviver com o que é diferente. O grande aprendizado de Soluço será justamente esse: entender que se trata de uma luta moral difícil, da qual não se pode vencer todas as batalhas.

Em essência, a grande história envolvendo os três filmes da série é amor. Não o romance ou um conceito simplório de felicidade, mas de um amor em que, necessariamente, vem junto com ele a perda, tanto dentro do âmbito familiar como em relação, por exemplo, ao apego às raízes. Um aprendizado que é bem ilustrado ao vermos Soluço, enfim, já mais velho, com filhos e um rei de verdade.