A família interesseira e ávida pela herança do patriarca recém-falecido é comum a vários filmes do gênero mistério, concentrando-se num extrato social abastado que não mede esforços para não perder os privilégios obtidos.

O que “Entre Facas e Segredos”, em cartaz a partir de hoje nos cinemas, nos oferece como particularidade, o que provavelmente o colocou entre os indicados aos Globo de Ouro de melhor filme de comédia/musical, é a luta de classes.

O único representante da outra ponta desta contenda é uma enfermeira (a cubana Ana das Armas) que foi a última pessoa a ter contato com o falecido escritor de best-sellers. Há neste fato um movimento de vaivém que é a espinha dorsal do filme.

Os detetives, liderados por Daniel Craig, perfazem um caminho em direção ao passado para entender o funcionamento daquela família e os seus interesses, percebendo que todos, sem exceção, teriam uma razão para matar o autor.

O retrato que surge deste primeiro movimento é de que os personagens, apesar de não gostarem do escritor vivido por Christopher Plummer, são completamente dependentes dele, diferentemente da enfermeira estrangeira.

A luta desta é pela sobrevivência – não a financeira, é bom que se diga. A mansão se torna uma “selva” em que, gradativamente, o refinamento dá lugar a ataques que deixam claro questões como berço, nacionalismo e xenofobia. 

A enfermeira faz um movimento contrário, em torno de seu futuro, que pode ser tanto de uma imigrante a ser deportada como a nova dona da mansão. A última cena do filme é muito simbólica destas mudanças de perspectiva.

A única pessoa sem vínculo sanguíneo com o dono daquele império editorial é, justamente, quem carrega o seu “sangue”, no sentido figurado e literal. É ela quem, dependendo do ângulo de visão, lhe retira e devolve a vida.

Por este prisma, é possível analisar o longa-metragem de Rian Johnson (“Os Últimos Jedis”) como um espelho irônico sobre impérios decadentes que se agarram a antigos valores para ganharem uma sobrevida num mundo em constante transição.

E talvez por isso, em contraste à sofredora personagem central, o papel do detetive de Craig nos salta aos olhos como artificial, realizando os desejos do espectador, mas irreal na medida que a rapidez como chega às conclusões faz dele algo irreal.

Neste sentido, o final se torna tragicômico, num tom farsesco em que o detetive parece ser onisciente, sabedor de tudo o que acontece, gabando-se desta habilidade, enquanto a enfermeira carrega a condenação das lendas mitológicas, proibida de mentir neste tabuleiro de manipulações.