Filmes de várias leituras políticas, do mais explícito ao metafórico, denúncias de censura a produções de “temas espinhosos” e festivais internacionais usados como forma de protestar sobre a situação do país. Parece um resumo do cinema brasileiro realizado nas décadas de 60 e 70, quando tentava driblar a ditadura militar, mas esses relatos são de 2016.

Enquanto cresce o número de filmes que revisitam um dos capítulos mais negros da História, como “Retrato de uma Identificação” e “Galeria F”, os grandes festivais voltaram a servir de palco à manifestação de realizadores brasileiros, como se viu na manhã de ontem, em Cannes, quando a projeção de “Aquarius” representou também um ato político.

Sem Democracia
No tapete vermelho do festival francês, o diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho e elenco (incluindo Sônia Braga) aproveitaram os flashes e holofotes para levantar cartazes que afirmavam que “um golpe aconteceu no Brasil”, referindo-se ao afastamento de Dilma Rousseff da presidência da República, na semana passada.

Único representante do Brasil na competição oficial, além da boa acolhida de críticos, que já o põem entre os favoritos à Palma de Ouro, “Aquarius” ganhou sinal verde da organização para avisar ao mundo que “o Brasil não é mais uma democracia”, um dos muitos cartazes, escritos em diversos idiomas, que tomaram conta da première brasileira.

Dentro do Palácio dos Festivais, as manifestações continuaram, gritando “Fora (Michel Temer)!”, com a adesão de outros cineastas presentes em Cannes. O público parece ter entendido a mensagem e ovacionou o filme de Kleber, mesmo diretor de “O Som ao Redor”, um dos mais importantes longas lançados nos últimos anos no Brasil.

A presidente afastada Dilma Rousseff usou as redes sociais para agradecer as manifestações em Cannes. “Obrigada pelo apoio!”, escreveu. Ela agradeceu nominalmente o diretor e as atrizes Sônia Braga e Maeve Jinkings. Terminou seu agradecimento escrevendo: “Ao elenco extraordinário do filme #Aquarius um beijo em nome da democracia. #Cannes2016”, tuitou.

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“Retrato de Uma Identificação” – Filme teve sua sessão cancelada na Embaixada em Paris

Espinhoso
Ainda nessa semana, o cinema brasileiro viveu outra polêmica de cunho político no país europeu. O filme “Retrato de uma Identificação”, da cineasta mineira Anita Leandro, que exibe fotografias de presos políticos dos tempos da ditadura, teria - segundo informações da página ofiical do longa no facebook - sua exibição na embaixada em Paris cancelada, prevista para o dia 31, com organização da associação Alter Brasilis. A explicação seria o "assunto espinhoso", de acordo com os organizadores.

A embaixada se manifestou em nota, no final da tarde de terça-feira, dizendo que "nunca houve previsão de que tal evento se realizasse", acrescentando que a proposta dos organizadores foi encaminhada ao Setor de Cooperação Educacional em prazo insuficiente para a promoção de iniciativas desse porte. Além disso, garantiu que "a embaixada nunca expressou qualquer juízo sobre o conteúdo da iniciativa".

 

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Tom de alerta e deboche: política inspira documentários, comédia, thriller policial e até filme pornô

Diretora de “Galeria F”, que retrata as torturas praticadas na época da ditadura militar, Emilia Silveira teme que seu filme deixe de ser um alerta para se tornar uma denúncia sobre o que ela chama de “era de obscurantismo político-cultural no país”.

Assim como seu trabalho anterior, “Setenta”, ela concebeu o longa-metragem, exibido recentemente do festival “É Tudo Verdade”, em São Paulo, como uma maneira de ajudar a derrubar “a cortina de silêncio” sobre a repressão sofrida pelos militantes.

“Tivemos 20 anos de ditadura e mais 20 anos de esquecimento, de uma história que foi jogada para debaixo do tapete. Com a abertura dos arquivos e a criação da Comissão da Anistia (em 2002), alguns poucos e bons filmes começaram a surgir, levantando temas que eram desconhecidos do público”, registra.

Depois que “Galeria F” ficou pronto, Emilia percebeu, com os novos fatos políticos, que o documentário ganhou outro olhar, como um importante alerta para que os acontecimentos do passado não se repitam. “O que estamos vivendo é uma situação muito grave. Não é só uma questão da classe artística. É de todo povo brasileiro”.

Entre os curtas-metragens, que têm uma produção mais rápida, há várias obras que se debruçam sobre a atualidade, como “Da Janela para a Consolação”, de Dellani Lima, sobre um viúvo que vê de sua janela os protestos ocorrerem. E o mineiro “Na Missão, com Kadu”, que registra a repressão policial contra manifestantes a favor da “Ocupação Izidora”, na região Norte de Belo Horizonte.

Outro Lado
Além dos documentários, a política vem ganhando outros gêneros e abordagens. Em cartaz nos cinemas, “Em Nome da Lei” é um thriller policial sobre um juiz que desbarata um esquema de corrupção, que tem em Mateus Solano uma espécie de Sergio Moro, e a comédia “Mulheres no Poder”, com Dira Paes no papel de uma senadora inescrupulosa.

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“Em Nome da Lei” – Filme de Sérgio Rezende tem Mateus Solano como um juiz que desmonta um esquema de contrabando e tráfico de drogas

Até mesmo o cinema pornográfico resolveu embarcar na onda política, com “Operação Leva Jato”, da produtora Brasileirinhas. Lançada na semana passada, na plataforma de streaming, é uma paródia bem apimentada sobre a operação da Polícia Federal que apura os escândalos de corrupção na Petrobras. Os atores e atrizes assumem papeis de agentes, delatores e investigados. 

“Acho que pelo momento político que o país se encontra, temos que tornar os envolvidos nesse escândalo tão ridicularizados para que o fato jamais se repita e para que até as pessoas que não gostam de política entendam que é um momento único da política brasileira, onde todos precisam se conscientizar dos fatos”, destaca Clayton Nunes, dono da produtora.

“Espero que este filme faça até quem não goste de política pensar: ‘caramba, se fizeram até filme pornô com isso acho que realmente é preciso saber direito o que está acontecendo’”, relata Clayton, que teve a ideia após tomar conhecimento do caso do dólar na cueca, que “tinha tudo a ver” com o pornô.

O filme foi gravado ao vivo no reality show brasileirinhas.casa, site onde se acompanha os bastidores de todas as produções da produtora.

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“Mulheres no Poder” – Comédia sobre políticas à frente de um esquema corrupto

(*) com agências