Produzido com recursos brasileiros e franceses, o filme português “Diamatino” nos remete ao clássico italiano “O Conformista” (1970), de Bernardo Bertolucci, ao recorrer a uma atmosfera quase surreal para exibir a ascensão fascista no mundo e à maneira clownesca como retrata o personagem principal.
 
Diamantino é um jogador de futebol. Apesar de os créditos iniciais deixarem claro que se trata de ficção, não dá para disfarçar a inspiração do protagonista em Cristiano Ronaldo, pelo biotipo, por um certo culto ao corpo e por ser o maior craque da seleção portuguesa.
 
Dirigido por Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt, o filme acontece durante a Copa do Mundo de 2018, quando Portugal e Suécia fazem a grande final. Os patrícios perdem o título após uma penalidade desperdiçada por Diamantino no último minuto, levando o jogador a virar alvo de memes e sinônimo de fracasso.
 
Muros
O momento é visto como propício para um partida nacionalista usá-lo para protagonizar uma campanha contra a participação do país na União Europeia, defendendo, entre outras coisas, um muro contra a imigração e uma segunda chance para os “verdadeiros” portugueses mostrarem o seu valor.
 
Diamantino é ingênuo, vivendo numa espécie de “bolha” criada por seu pai. Quando este morre e a carreira passa a ser gerenciada pelas irmãs gêmeas, a realidade entre em seu mundo habitado por cachorrinhos felpudos imaginários, como o contato com os milhares de refugiados que chegam a Portugal.
 
Exibindo estádios e a residência do jogador como grandes monumentos fascistas, o filme se sustenta no contraponto entre Diamantino e a cabo-verdiana Aisha, símbolo da diversidade de gênero e raça. Como o Marcello de “O Conformista”, ambos são marionetes numa trama que, a cada passo em direção ao absurdo, ganha contornos mais reais.