A quantidade de séries que será lançada agora deixa o roteirista Sylvio Gonçalves frustrado. Fã dessas produções, ele diz que a qualidade e a variedade oferecidas hoje são tão grandes que tornam impossível encontrar tempo para ver tudo.

“Muitas entraram e saíram e só agora estou colocando em dia, ainda que alguns canais tenham optado por fazer séries mais compactas, com poucos episódios”, destaca. “Westworld”, que estreou no último fim de semana, na HBO, tem esse formato e é uma das apostas do canal para suceder o fenômeno “Game of Thrones”, que terá a oitava e última temporada lançada em breve.

Apesar do momento efervescente, Camila Castro, que coordena o site “Apaixonados por séries”, destaca que a audiência vem diminuindo ano a ano nos Estados Unidos, o que explica a busca por formatos diferenciados e marcas famosas, como “24 Horas”, “McGyver” e “Máquina Mortífera”, que estreou na última terça no Brasil, no canal Warner.

“As emissoras estão com dificuldades e por isso apostam numa coisa mais certa, pegando um sucesso do passado para lançar de novo”, analisa Camila, que é professora de curso de Engenharia de Produção da PUC Minas. Espectadora assídua de “Friends”, ela resolveu criar um blog (transformado depois em site) em 2009.

Herança britânica 

Para Sylvio, é mais fácil para as emissoras investirem em títulos que já tenham uma publicidade embutida. “Você pode não ter visto ‘McGyver’ (“Profissão: Perigo” no Brasil) nos anos 80, mas já deve ter ouvido falar. Há uma certa comodidade nisso”, salienta.

Sylvio observa que não é de hoje que a TV bebe da fonte do cinema. “Nos anos 50, já replicavam os produtos da telona. A ideia era expandir o conceito, como aconteceu com o filme ‘M.A.S.H,’, que ganhou um seriado na década de 70. ‘Friends’ era para ser assim também, baseando-se em ‘Vida de Solteiro’, mas acabou virando outra coisa”, recorda.

Mas as séries televisivas só deixaram de ser o primo pobre do cinema nos anos 90, a partir de “Twin Peaks”, dirigida por David Lynch, que, não por acaso, está retornando agora à TV. “Antes eram soap operas. Agora elas têm um arco dramático longo, como se fosse um filme de várias horas”. Uma herança da TV britânica, que exibia séries curtas.

Os maiores beneficiados foram os canais fechados, como HBO e Showtime. “Os abertos precisam ocupar a programação de, pelo menos, metade do ano. Muitas vezes acontecia até de você não saber se chegaria ao fim, pois puxavam a tomada de uma só vez interrompendo a exibição por falta de público”, historia Sylvio.

Quem também saiu ganhando foram os sites de streaming como Netflix e Amazon. “Eles produzem todos os capítulos antes de lançar e liberam tudo de uma vez e você acaba vendo num fim de semana”, assinala.

“Vivemos uma nova era de ouro da TV, depois dos anos 60, em que você tem nas séries, muitas vezes, algo superior ao cinema”, afirma Sylvio

“Magnífica 70"

“Magnífica 70": exemplo de qualidade na produção nacional de seriados

Pegada moderna para velhos hits

Com a concorrência pesada de canais fechados e de streaming, as redes tradicionais resolveram reativar as marcas mais famosas para não perder a audiência, o que explica o fato de séries como “24Horas” e “Arquivo X” estarem de volta. “Elas tiraram o pó e deram uma nova roupagem”, observa Bruno Carvalho, editor do site “Ligado em Série”, o mais seguido do Brasil sobre o universo das telesséries. Ele ainda não sabe o que irá “pegar” nesta temporada, mas vê no recém-estreado “Westworld” (HBO) um forte candidato.

Nos EUA e no Brasil, essa é a época de várias séries na televisão, novas e continuações. Quais são aquelas que geram maiores expectativas, nos gêneros comédia, drama, policial e sci-fi?
Não há uma tendência exata. Ela vai se formando à medida em que as séries chegam e público e crítica avaliam o desempenho delas. Temos uma Fall Season (o período mais importante do ano para as séries de TV) marcada por diversos remakes e reboots de filmes e séries clássicas, e uma inclinação para o sci-fi. Ainda é cedo pra dizermos o que vai pegar. 

O que esperar, por exemplo, de “Máquina Mortífera”, baseada num filme de ação e humor da década de 80 protagonizado por Mel Gibson e Danny Glover?
“Máquina Mortífera” foi um dos pilotos da temporada que me surpreendeu, graças à qualidade da produção e química entre os protagonistas, que não se limitam a tentar copiar a dinâmica de Mel Gibson e Danny Glover, da franquia original. Tem tudo pra ser um hit, se os roteiros entregarem uma boa trama.

Ainda vindo do cinema, há também “Westworld”, extraído de uma ficção científica dos anos 70. O que achou dos primeiros episódios?
Talvez a melhor estreia da temporada, mas talvez por ser de um canal premium, a HBO, que investiu pesado na produção e precisava garantir que teria na casa uma “sucessora” digna de “Game of Thrones” – que acaba em 2018. Pelo que já vi da série (não posso falar muito além do piloto), consigo afirmar que é o drama de ficção científica que tem mais potencial de crescimento desde “Lost”. Produção épica, grandiosa, empolgante e impecável.

Falando em sci-fi, será lançada também uma nova série baseada na franquia “Star trek”. Isso mostra que a TV também quer apostar em marcas mais seguras?
A TV sempre se apoiou em franquias e o que estamos vendo agora é apenas mais uma interação dessa necessidade. Com a grave crise criativa e a dificuldade que canais tradicionais dos EUA andaram tendo nos últimos anos de emplacar novas[/TEXTO] séries – muito em vista da chegada de novos <CF36>players</CF> como Hulu, Amazon Prime Video e, especialmente, Netflix – as TVs tradicionais reativaram produtos licenciados de sucesso, tiraram o pó e deram uma nova roupagem. É por isso que séries como “24 Horas”, “Prison Break”, “O Exorcista”, “Dia de Treinamento”, “Máquina Mortífera”, “Arquivo X” e outras estão de volta com tudo.

O Brasil tem tentado entrar nessa seara também. Um exemplo é “Magnífico 70”, que estreou no último fim de semana na HBO. O que achou da série?
“Magnífica 70” e as séries nacionais da HBO representam hoje o maior e melhor esforço em termos de produção nacional de qualidade. Outros canais a cabo tentam emplacar séries, mas não conseguem no nível de sofisticação das vindas do canal premium. É por isso que produções como a própria “Magnífica 70”, “O Negócio”, “PSi” e “O Hipnotizador” estão aí renovadas, enquanto outras séries nacionais são rapidamente engavetadas e só cumprem a obrigação de cota. Ainda assim, é um mercado difícil, pois a concorrência com produtos estrangeiros e mais atrativos para o grande público é imensa e prejudica o desempenho de boas histórias nacionais que têm surgido.

Há séries que já podemos considerar longevas, como “Supernatural”, “Arrow”, “The Walking Dead”, “Prison Break”, “Homeland”... Existe uma fórmula para conseguir esse sucesso?
Não existe uma fórmula concreta. São diversos fatores que podem contribuir para um sucesso, desde o básico – bom roteiro e boas interpretações – até elementos externos como o dia da semana/horário e forma de exibição (nos EUA), a época em que foi lançada (o contexto do país e do mundo) e a adoção do público, cada vez mais exigente e “nichado”.