“A luta ainda continua nas favelas e no Senado, onde há sujeira para todo lado. Ninguém respeita a Constituição”, cantarola Dado Villa-Lobos, confirmando ao Hoje em Dia que a canção ícone de uma geração, “Que País é Este”, continua muito atual, 40 anos após ser composta por Renato Russo.
 
“Meu verdadeiro desejo era de que essa música tivesse sido esquecida. Infelizmente, a cada dia que se passa, ela faz mais sentido ainda”, lamenta o guitarrista da banda Legião Urbana, liderada por Russo. Para ele, o título revela a síndrome do brasileiro, ao tentar descobrir que lugar é esse em que vive.
 
Embora tenha sido gravada em 1987, no disco que leva o nome da música, e reconhecida como um dos hits da Legião, “Que País é Este” foi composta quando Russo estava no Aborto Elétrico, em suas primeiras investidas musicais. Dado não fazia parte do grupo, mas já era um fã do cantor.
 
“Eu a ouvi pela primeira vez em 1981. Tinha 16 anos e achei incrível. Estávamos na ditadura militar e a música nos estimulava a lutar pela democracia, pelos nossos direitos. Ela acabou virando um monolito, como o do filme ‘2001’, já se sedimentando e tornando-se onipresente”, lembra.
 
Depois de tocá-la por tantos anos, mesmo após a morte de Russo em 1996, em decorrência de complicações da Aids, Dado Villa-Lobos ainda carrega o sentimento de raiva da música. “É uma grande canção e, paradoxalmente, muito aterrorizante. Do tipo fantasma que sai à noite. Como se pairasse no ar”.
 
Hino alternativo
Autor dos livros “Renato Russo: Trovador Solitário” e “BRock: o rock brasileiro dos anos 80”, o crítico musical Arthur Dapieve registra que a música ganhou um caráter de hino alternativo do país, gerando uma espécie de catarse na plateia sempre quando é tocada.
 
Dapieve não se recorda de outra música nacional que tenha entrado no imaginário popular com a mesma força de “Que País é Este”. O que se mais aproxima desta potência, segundo o jornalista, é outra canção da lavra do Legião Urbana, “Perfeição”, que também fala das nossas mazelas sociais.
 
Apresentada no disco “Descobrimento do Brasil” (1993), ela é “mais complexa, com uma letra maior e cantada em samba exaltação”. Ele também cita “Inútil”, do Ultraje a Rigor, que estampou a campanha das Diretas Já, e que, diferentemente de “Que País é Este”, joga a responsabilidade nas costas do povo.
 
A música de 1978 é muito simples de cantar e tocar. Dapieve conta que Russo gostava de dizer, com uma falsa modéstia, que com três ou quatro acordes poderiam tocar todo o repertório do Legião. “Ela parte de uma letra inspirada no punk rock, pegando na veia”, observa.
 
Corpinho de 15
Apesar de ter recebido outras leituras posteriormente, a canção original continua imbatível, na avaliação de Dapieve, que credita sua força não só na letra de Russo, mas também no baixo de Renato Rocha, na guitarra de Villa-Lobos e na bateria de Marcelo Bonfá.
 
“As versões que mais se aproximaram do original são aquelas do Capital Inicial e do Paralamas do Sucesso, bandas muito próximas do Legião pelo estilo e pela faixa etária, que entendiam muito do espírito do grupo de Renato”, analisa o jornalista. “O acúmulo de qualidade dessa canção é tal que, apesar dos 40 anos de idade, ainda exibe um corpinho de 15”, resume Dapieve.
 
RUSSO1

Criado e lançado numa entressafra criativa da Legião Urbana, o disco “Que País É Este” reúne canções antigas mas nunca gravadas pela banda

 
A eternindade de uma canção que nasceu para ser datada
 
Thiago Pereira
talberto@hojeemdia.com.br

Um dos maiores méritos de Renato Russo era sua capacidade de comunicação, e seu entendimento absurdo das formas de se vincular a uma grande audiência, engenhosamente, sem arrastar um milímetro sequer do que poderíamos chamar de “dignidade artística”.
 
Jornalista de formação, professor pela prática, artista no sonho realizado, Russo faz parte de uma época em que ser (bom) roqueiro no Brasil exigia certa musculatura intelectual. Como ele disse certa vez, escrevia para que as pessoas pudessem o compreender, seja na Vila Rica do século XVIII, seja numa megalópole japonesa hiper futurística. Curiosamente, tinha a expectativa de “Que País É Este” escapasse desta regra de seu manual de composição, e se tornasse datada, tema superado. Amargamente, é uma de suas canções mais eternas, pronta à latir, raivosamente, com nossas fendas morais mais tristes, no passado, presente e futuro. 
 
Em uma daquelas parcerias orgânicas, espontâneas com o público, típica dos hinos pop das multidões, a pergunta central que batiza a canção ganhou uma resposta quando executada ao vivo, vigorosa mas profundamente cansada, frustrada: “É a porra do Brasil”. 
 
E que país era aquele, que inspirou os versos da canção? Um Brasil de Geisel proibindo greves; de um incêndio que destruía parte do acervo do Museu de Arte Moderna no Rio de Janeiro; de um congresso que extinguia o Ato Institucional n° 5, vergonhosa ordem repressora e elegia um último general como presidente, João Figueiredo. 
 
Um Brasil manchado de sangue mas que coagulava também novos jovens, gente que, culturalmente, se alimentava do nutriente mais saudável da ração tropicalista: a expectativa de parir um outro Brasil, anti-atraso, moderno, filiado ao resto do mundo. Russo era desses.
 
É sempre perigoso e pouco científico aproximar tanto os tempos, mas também é muito sedutor perguntarmos que país é este, 19 de março de 2018, onde ainda estamos manchando as páginas de jornais com notícias como a da execução de Marielle Franco, semana passada. Onde estamos considerando um sujeito que tece elogios à tortura como possível gestor da República. Resposta atualizada, quatro décadas depois: “É a porra do Brasil”. 
Mas, na morte descansamos.