Em 90 anos de vida, completados ontem, o jornalista e escritor mineiro José Maria Rabêlo viu a mesma história ser contada diversas vezes, só mudando os protagonistas. Repetição que é um pilares do livro “Os Caminhos do Exílio”, que será lançado amanhã, às 19h30, no auditório da Cemig, dentro do projeto “Sempre um Papo”.
 
Editor do jornal “Binô-mio”, um dos primeiros jornais alternativos do país, vítima da censura imposta pelo regime militar nos anos 60, Rabêlo reconstitui no livro o contexto dos golpes de 1954 e 1964, no Brasil, e de 1973, no Chile, apresentando elementos que se assemelham ao instante político vivido pelo país atualmente.
 
Uma relação contada a partir de suas próprias vivências, como alguém que esteve perto de ser preso e morto diversas vezes e que enfrentou um general a socos e pontapés, na redação do jornal. “As pessoas podem ver nisso (a briga) a minha grande glória. Mas se eu posso reivindicar uma glória, foi a coerência que tive ao longo da vida”, observa ao Hoje em Dia.
 
Erro de cálculo
Para Rabêlo, todos os altos e baixos políticos fazem parte da marcha da História. “Vejo o seguinte: as classes dominantes, não só Brasil, mas em qualquer parte, são muito arraigadas na defesa de seus privilégios e vão até às sombras do fascismo. A humanidade caminha sobre um fio muito tênue e basta um erro de cálculo para tudo cair em cima de você”.
 
O auditório da Cemig fica na Avenida Alvarenga Peixoto, 1200, no Santo Agostinho. A entrada é franca
 
Segundo ele, “coisas que pensávamos estarem sepultadas, nas cinzas da História, estão voltando, como a discussão sobre a escravidão”. Nos vários golpes que acompanhou, os ingredientes eram praticamente os mesmos: uma ação preparada lentamente que culminaria na perda de vários direitos, individuais e coletivos.
 
Foi assim em 1964, quando “descia num elevador e os militares subiam no outro”, no prédio onde ficava a redação do jornal, “por segundos não sendo morto”. Rabêlo saiu ileso desta e de outras situações, voltando ao Brasil em 1977, na época da Anistia. 
 
Apesar do olhar crítico que a vivência lhe trouxe, ele não é pessimista. “Acho que, se o homem sobreviveu até agora, por quase 200 mil anos, vai sobreviver aos desafios de hoje, avançado para um mundo superior. Não sei quando, mas virá”, analisa.
 
Apresentando-se como um velho, “mas não caduco”, ele prepara o lançamento de “A História Geral de Minas”, em que fornece uma visão crítica dos fatos ocorridos no Estado. “Sinto-me um privilegiado ao chegar aos 90 anos e ainda trabalhar pelo compromisso popular. Falo isso sem vaidade, pois muitos se perderam ao longo da caminhada e são mais lembrados pelas traições que cometeram”.