Basta Aguida Alves caminhar pelas ruas de Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, por alguns minutos, que logo ela é surpreendida com um grito: “Eu aceito poesia!”. Esta curiosa abordagem tem relação com o grupo Arautos da Poesia, que a bibliotecária coordena há 11 anos. Formado, em sua maioria, por crianças e adolescentes, o projeto contabiliza mais de 230 apresentações, sempre realizando a mesma pergunta aos espectadores: “Você aceita uma poesia?”.

Conhecida como a Senhora dos Versos, título de um cordel feito em sua homenagem, Aguida vai contar a história dela – que insiste em dizer que foi simples, de “uma dona de casa que se formou em Pedagogia e saiu para trabalhar”, vinda de Malacacheta, no Vale do Mucuri – e a do Arautos da Poesia no “Sempre um Papo”. A conversa será virtual e acontecerá hoje, a partir das 18h, com transmissão ao vivo no YouTube, Instagram e Facebook do projeto.

Do lado da coordenadora estará Sheila Emília, exemplo vivo da importância do Arautos da Poesia. Após entrar no grupo aos 16 anos, ela tomou gosto por esta forma de literatura e hoje, oito anos depois, vem colecionando prêmios como escritora enquanto exerce também a profissão de atriz. E sem abandonar o projeto de Aguida. “Antes tínhamos uma restrição de idade, de sete a 14 anos. Mas as pessoas vão ficando e não querem sair mais”, registra a mulher que virou sinônimo de poesia em Sabará.

Na escola onde trabalha, no bairro Jardim Vitória, na região Nordeste de BH, ela costuma mudar a opinião de alunos que vão à biblioteca atrás de um exemplar de Harry Potter. “Sempre digo: tem um livro de poesia que vocês precisam ler. E eles acabam levando. É uma forma de pôr boa literatura nas mãos deles”, salienta Aguida, que tenta driblar o estigma que a poesia sofre no Brasil, como um patinho feio de nossa literatura.

“Nas escolas, normalmente os alunos são apresentados a Vinicius de Moraes e Cecília Meireles. E temos tantos poetas que escrevem para a infância. As crianças que crescem ouvindo palavras tão belas de Adélia Prado têm a chance de não esquecer mais e se tornarem seres humanos melhores”, afirma. O segredo, diz a coordenadora, é apresentar a poesia de uma maneira brincante, para que os pequenos sejam atraídos para ela.

As apresentações começaram com esse objetivo e não pararam mais. Mesmo neste momento de pandemia, a poesia continua sendo disseminada, em grupos de whatsapp ou na ação da filha de Aguida, Cecília, de 12 anos, que passa pela casa dos vizinhos para levar uma sacolinha de livros. Uma façanha e tanto para uma senhora que, parafraseando Adélia Prado, foi “pega pela poesia com a roda dentada”.