Fernanda Vidigal virou sinônimo de circo. Há duas décadas ela está à frente do Festival Mundial do Circo, que inicia a sua 20ª edição nesta sexta-feira, em formato virtual. O destino quis que a atriz iniciante deixasse o palco para se tornar uma das principais produtoras culturais de Minas Gerais. Com o festival, Fernanda acompanhou a transformação da arte circense, que passou a flertar com o teatro, com a dança e com a música. A ponto de, na edição deste ano, a produtora perguntar onde está a essência circense no material que recebeu para seleção. “Para ser um espetáculo circense, precisa passear, ao menos, por uma das técnicas. Não precisa, por exemplo, ser um malabarismo tradicional, em que, no lugar de jogar bolinhas, você use tampinhas. Ou que se equilibre em cima de uma árvore. Do contrário, fica muito esvaziado o sentido do que é circo”, afirma.

Como o circo entrou na sua vida?
Eu sempre participei de grupos de teatro, chegando a fazer um curso de férias em São Paulo, numa escola de circo. Como sempre fui um pouco gordinha, nunca fui adepta das atividades mais físicas, mas jogava malabares e tinha uma coisa de palhaço. Pouco depois me tornei uma das fundadoras do Armatrux, antes dele ser Armatrux. A gente tinha um grupo que se chamava Tangram. Na época, havia uma escola de teatro e música que tinha esse nome, Tangram. Estava sempre participando desse mundo das artes cênicas. Mas quando eu fiz o curso de Comunicação Social na PUC, acabei me encantando pela produção cultural. E as propostas foram vindo, sendo chamada para produzir espetáculos e outras atividades. Creio que, como atriz, eu era uma excelente produtora (risos). Assim fui largando essa experiência à frente dos palcos e me embrenhando naquilo que acontecia nas coxias. Eu me formei em Relações Públicas e abri a Agentz Produções. Foi quando oficializei a minha carreira como produtora.

Para as pessoas lhe chamarem para ser produtora, você certamente tinha uma característica que se destacava. Qual era?
Eu tive uma escola, tendo trabalhado com Pedro Paulo Cava no Teatro da Cidade, e o Rodrigo Campos, que é um diretor de teatro e audiovisual bem exigente, além do Galpão Cine Horto. Tive uma escola de produção de gente muito profissional. Eu tenho uma coisa que todo produtor deve ter: ser uma pessoa do sim. A produção exige que você seja muito dinâmica, tenha raciocínio rápido e encontre soluções quando há problemas. No fundo, a produção é sempre um pouco resolver e reduzir os problemas. Lá no começo da carreira, eu tinha esse gás já, de que não havia nada impossível. Eu me lembro de quando trabalhei na trilogia do Teatro da Vertigem, em 2004, durante a programação do Festival Internacional de Teatro de Palco & Rua (FIT). O Teatro da Vertigem tem a preocupação de ocupar espaços não tradicionais e, no caso da trilogia, eram uma prisão, uma igreja e um hospital. Usamos o Sarah Kubitschek em funcionamento.

O seu cartão de visitas é o Festival Mundial de Circo, que acontece desde 2001. Você acredita que ele ajudou a mudar a percepção das pessoas em relação ao circo?
Desde a produção da primeira edição, sempre tinha essa coisa de que o circo estava mudando ou acabando. E ele sempre esteve aí, se renovando. Mas, claro, após 20 anos a gente vê principalmente um profissionalismo muito maior dos circenses. Temos um histórico de escolas de circo muito importante. Aliás, quero aproveitar essa oportunidade para mencionar uma crise muito grande na Escola Nacional de Circo. Uma pena! Ela sempre foi uma referência na América Latina de qualidade de formação circense e estamos vendo o seu desmonte agora. Não só ela, mas outras escolas, aqui em Belo Horizonte, em Salvador, em São Paulo, em várias capitais, formaram muitos artistas. O circo mudou muito a partir da década de 1980, quando surgiram essas escolas. O circo não é só mais passado de pai para filho, debaixo de uma lona. O teatro vem se utilizando muito as técnicas circenses, promovendo uma mistura cada vez maior, com um bebendo as referências do outro. O que tem feito o espetáculo circense mudar muito. O artista circense hoje sabe dançar, tocar um instrumento... São artistas da cena muito profissionais. Hoje tem muito mais trabalho audiovisual, inclusive. O circo é uma arte que se adapta e bebe muito de outras linguagens. Sempre foi assim, só que agora, com a tecnologia, isso é mais fácil.

A referência continua sendo o Cirque du Soleil?
Ele foi sim uma referência, mas hoje existem grupos contemporâneos de circo mais modernos. A gente fala que o Cirque du Soleil é antigo, para você ter uma ideia. O formato deles já está ultrapassado. Eles têm muito dinheiro, são superproduções. Não é que não tenha qualidade. Mas é um tipo de espetáculo que foi inovador há 20 anos. Há trabalhos mais inovadores atualmente. Para gente, o Cirque du Soleil já é tradicional. (risos)

O que seria essa inovação hoje?
Por exemplo, o grupo canadense “Os Sete Dedos da Mão”, que estará no festival. Curiosamente, vários artistas desse grupo vieram do Cirque du Soleil. É outra estética, outra visão do que é circo. A qualidade técnica é indiscutível em qualquer um deles, mas a estética, a forma como se faz o espetáculo, esse sim é muito diferente.

Você mencionou a questão da introdução de elementos de outras artes, como o teatro e a dança, mas percebo que essa variedade é tamanha que há uma certa dificuldade, em alguns espetáculos, em encontrar a essência circense neles. O que seria a base do circo?
Isso hoje está cada vez mais difícil. Esse ano a gente abriu um edital público para receber propostas. Foram mais de 700 inscrições. E às vezes eu olhava os vídeos e indagava se aquilo era circo mesmo. Tem muitos trabalhos que são híbridos. A nossa curadoria partiu do princípio de que, para ser circo, é preciso ter técnica circense E o que é isso? É ter um instrumento, um aparelho circense, como a lira, o trapézio, o tecido, as acrobacias, os malabares... Quem não pôs nada disso, optamos por classificar esse trabalho de outra forma. Para ser um espetáculo circense, precisa passear, ao menos, por uma das técnicas. Não precisa, por exemplo, ser um malabarismo tradicional, em que, no lugar de jogar bolinhas, você use tampinhas. Ou que se equilibre em cima de uma árvore. Do contrário, fica muito esvaziado o sentido do que é circo.

Em Minas Gerais, temos uma tradição enorme de circos que, como você definiu, acontecem embaixo da lona e são passados de geração para geração. Vocês ainda mantêm uma relação com esse tipo de circo?
O festival sempre foi um evento menos “circo-lona”, porque a participação desses artistas sempre foi um pouco mais complicada. Mas há momentos em que a gente convida artistas que trabalham em circos tradicionais para montarem para o festival algum número ou espetáculo, junto com artistas que trabalham fora da lona. Desde 2006, fazemos um projeto de coprodução que se chama “Espetáculo de variedades”, em que contratamos um diretor para costurar os números. A gente acredita nessa aproximação. Artista circense é artista circense, independentemente de onde ele trabalha. O interessante é justamente essa mistura.

E como você tem acompanhado esse momento de grande dificuldade de manutenção dos circos tradicionais, devido à pandemia?
A gente fez uma campanha, no meio do ano passado, para arrecadarmos cestas básicas, porque até isso estava faltando para o circense. A Lei Aldir Blanc ajudou muito, fundamental para eles desenvolverem algum projeto autoral. Não sei quando é que vamos ter a oportunidade de estar embaixo de uma lona.

O que a gestão pública, quando você foi diretora municipal de políticas culturais, no primeiro mandato de Alexandre Kalil, lhe agregou?
Foi uma experiência muito bacana. Confesso que aprendi mais do que tudo, porque é muito diferente a relação. Acho que, até por isso, eu tinha uma relação muito próxima dos artistas e das pessoas que fazem cultura na cidade. Trabalhar com (o então secretário de Cultura) Juca Ferreira foi muito importante. Eu o admiro bastante como gestor e pensador de Cultura no país. Foi uma honra trabalhar com ele. É uma dedicação muito intensa, como a do produtor também, que é o primeiro a chegar e o último a sair. Eu tive que, na época, sair da minha empresa para assumir o cargo de gestora pública e vi que as coisas estavam piorando muito na Agentz. Fiquei com muito medo de a empresa ter que fechar. Aí optei por ela e saí achando que eu já tinha contribuído.

Qual a sua marca da Secretaria Municipal de Cultura?
Entrei mais para fazer um planejamento. Eu ficava mais nos bastidores. Não tem um projeto que possa dizer que fui eu que toquei lá na secretaria. Além da revisão do Plano Municipal, foi um pouco de organizar a casa. Fazer com que a secretaria tivesse um objetivo de atuação em todas as áreas. Organizar esse planejamento estratégico era a minha responsabilidade. E acho que foi cumprido. Hoje a secretaria tem um planejamento estratégico consistente e importante.