O crime na família Von Richthofen, que chocou o Brasil em outubro de 2002, trará um formato inovador para as salas de cinema, ao gerar dois filmes lançados simultaneamente, em março de 2020.

As produções “A menina que matou os pais” e “O menino que matou meus pais” contarão, respectivamente, as versões de Daniel Cravinhos e Suzane Von Richthofen baseadas nos depoimentos de cada um – que constam nos autos do processo – sobre a sucessão de fatos que levou ao assassinato de Manfred e Marísia Von Richthofen, na madrugada de 31 de outubro, enquanto o casal dormia na casa onde vivia, num bairro nobre da zona sul de São Paulo.

O coprodutor dos filmes, Gabriel Gurman, CEO da Galeria Distribuidora, atribui um ineditismo cinematográfico à opção de dividir a mesma história em dois filmes. Após terem pesquisado projetos parecidos mundo afora, o mais próximo encontrado foi da produção “Cartas de Iwo Jima” e “A Conquista da Honra”, filmados simultaneamente em 2006. Ambos dirigidos por Clint Eastwood, no entanto, não retratavam a mesma trama do conflito entre EUA e Japão na II Guerra Mundial e foram lançados em dias diferentes. 

“Percebemos que somente um filme não ia responder adequadamente a todas as histórias. Ficaria confuso começando pelo ponto de vista de um e terminando com o ponto de vista do outro”, diz Gurman. 

“O ponto mais conflitante entre os dois pontos de vista diz respeito aos motivos do crime, como era o tratamento desses pais com a Suzane”, completa, revelando que eles também farão uso das chamadas cenas espelho – algumas cenas estarão nos dois filmes.

O roteiro está a cargo da criminóloga Ilana Casoy, que já escreveu dois livros sobre o caso, e de Raphael Montes, autor de romances policiais, para contar as duas histórias a partir do crime, traçando flashbacks que remontam até os momentos em que Daniel e Suzane se conheceram. O produtor Gabriel Gurman também revelou o projeto de uma série sobre o crime, também contada em flashbacks, a partir de cenas do tribunal.

O produtor garante que para permitir que as pessoas assistam aos dois filmes no mesmo dia, a duração de cada um não deverá exceder 80 minutos. Não haverá ordem cronológica para acompanhar a versão de Daniel cravinhos e a versão de Suzane.

Indignação nas redes e filmes baseados em crimes reais

Cada novidade divulgada sobre a produção dos filmes “A menina que matou os pais” e “O menino que matou meus pais”, gera comoção sobre uma possível idolatria que possa gerar em torno de Suzane Von Richthofen e os irmãos Cravinhos, até boatos de que os criminosos receberiam pela produção do filme, o que motivou até um desmentido dos produtores nas redes sociais. 

“O filme é 100% baseado nos autos do processo, que está disponível para o público”, enfatiza Gabriel Gurman. “Nosso objetivo não é defender o lado de ninguém ou inocentar qualquer dos criminosos, até porque são réus confessos. Queremos dar duas versões para cada espectador tirar suas conclusões”.

Filmes baseados em crimes reais de repercussão não são novidade na história do cinema. Último filme de Quentin Tarantino, ainda em cartaz, “Era Uma Vez em... Hollywood” retrata o assassinato da atriz Sharon Tate por Charles Manson e seguidores. O assassino em série Ted Bundy foi objeto de várias produções, a última, deste ano, com Zac Efron.

O serial killer do Zodíaco também ganhou versões para as telas, a mais famosa dirigida por David Fincher, em 2007. Charlize Theron levou Oscar de Melhor Atriz pelo papel de Aileen Wuornos em “Monster: Desejo Assassino”. 

“Credito essa reação por se tratar de uma história muito próxima da nossa realidade”, analisa Gurman. “Nos EUA, há uma cultura de produção desse tipo de filme, por isso não resulta nessa mesma controvérsia.

No Brasil, o filme “O Bandido da Luz Vermelha” foi baseada n a história real do criminoso João Acácio Pereira da Costa.