“O drama humano sempre é o mais importante. Por trás das estatísticas, por trás dessa aritmética da tragédia, existem rostos, vidas e histórias”. Foi a partir dessa percepção que a jornalista Cristina Serra decidiu transformar em livro a própria visão sobre um dos maiores crimes ambientais do Brasil. 
 
Em “Tragédia de Mariana” (Editora Record), ela aborda o rompimento da barragem de Fundão, que em novembro de 2015 abalou a cidade, matando 19 pessoas e deixando um extenso rastro de destruição em Minas e no Espírito Santo.
 
O desejo de produzir a obra surgiu quando ela ainda trabalhava na Rede Globo e foi escalada para cobrir o desastre pelo programa “Fantástico”. “Fui várias vezes a Mariana; tive muito contato com as pessoas. São pessoas que perderam parentes, comunidades que viviam no mesmo lugar há séculos e perderam o modo de vida tradicional, rural. Houve um rompimento de laços afetivos muito grande e isso me comoveu muito”, confessa.
 
Assim, para dar voz e direito à memória das pessoas afetadas, ela decidiu documentar a tragédia. “Quis dar rosto às pessoas. Quem são esses 19 mortos? Muitos deixaram filhos ainda jovens, adolescentes, e muitos esperavam realizar sonhos”, explica Cristina.
 
Na obra, ela usa essas histórias como fio condutor, sem deixar de lado os outros fatores que envolveram o rompimento da barragem. “Fiz minha própria investigação, trouxe novas informações que nunca tinham sido divulgadas e que ajudam a compreender o cenário político e institucional da época e a ver como os processos de licenciamento são frágeis e como a fiscalização não funciona”, afirma. 
 
Mesmo diante dessas constatações, a jornalista admite que foi uma surpresa ver a tragédia se repetir em Brumadinho. “Alguns dos entrevistados falaram do temor de outros rompimentos no livro. Mas, sinceramente, como o que aconteceu em Mariana foi um desastre de grande magnitude, eu imaginava que as empresas mineradoras iriam tornar os processos mais rigorosos”, diz.
 
Não por acaso, ela conta que levou alguns minutos para assimilar quando viu, pela TV, que outra barragem havia rompido. “Sabia que poderia acontecer, que as instituições não funcionam adequadamente e que as empresas fazem o que querem. Mas tinha uma vaga esperança de que elas tivessem aprendido a lição. O próprio presidente da Vale havia dito que seu lema era ‘Mariana nunca mais’, mas, infelizmente, da pior maneira possível, constatamos que essa frase não passou de slogan que não foi aplicado na prática”. 
 
Novamente em contato com a tragédia, agora em Brumadinho, em cobertura para o Metrópoles, Cristina confessa o desejo de escrever também sobre o desastre na cidade. “Estou muito comovida com as histórias que conheci e, novamente, tenho aquela sensação de que damos as estatísticas, o número de mortos, de desaparecidos, o volume da lama, mas que, daqui a pouco, elas entram no esquecimento. Eu nem sei como começar um livro desse, mas que essa tragédia também precisa de um livro, é inegável”, pontua.