“Fazer de olhos fechados”: sinônimo de facilidade e rapidez, a frase não é uma mera força de expressão para Felipe Costa. Doutorando de Matemática na UFMG, ele se especializou em montar o cubo mágico sem ver o brinquedo “quarentão” enquanto gira as partes para lá e para cá em busca da combinação perfeita.

“Memorizo as posições criando histórias para elas. A parte de cima é upper (alto, em inglês) e a de trás é back. Junto as letras e formo palavras”, explica Costa, alagoano que, após aprender a técnica num tutorial da internet, treinou por três meses até conseguir solucionar o problema. “Já cheguei a montar dois ao mesmo tempo”.

Inventado pelo húngaro Erño Rubik em 1974, o cubo mágico continua sendo um desafio para as novas gerações, não mais como um passatempo que toda criança gostaria de ter nos anos 80, quando se popularizou no Brasil. Agora é adotado em escolas como ferramenta para as aulas de matemática e também como peça mágica.

EM CHAMAS

Há oito anos, Deivid Alcântara incorporou o quebra-cabeça tridimensional aos números de magia, incendiando a peça colorida diante de uma clientela surpresa em bares da Savassi, onde costuma se apresentar.

“Sou um mágico de close-up, de fazer truques próximos das pessoas e com objetos”, registra o prestidigitador de 26 anos.

Ele recorre ao cubo de Kubik não como uma forma de mostrar que o artista está acima dos “meros mortais”, incapazes de perceber os mecanismos por trás de cada mágica. “Faço para as pessoas se divertirem. Além da habilidade com as mãos, é preciso ser um bom ator”, confessa.

Deivid não é tão fanático como Júlia Assis Felipe, de 13 anos. Estimulada por uma professora da escola, ela começou com o brinquedo mais simples, de seis faces diferentes (conhecido como 3x3x3), e hoje busca objetos de solução complexa, já vislumbrando, no futuro, participar de competições.
 
MEIO MINUTO

“Os mais tradicionais resolvo em até 30 segundos”, afirma Júlia, que recomenda paciência e gosto por desafios para quem se interessar pela brincadeira. O pai dela, Maurício, lembra, todo orgulhoso, do dia em que comprou um cubo mágico para a filha e, na volta para casa, ela saiu do carro com ele montado.

“Assim não tem graça”, diverte-se Maurício, o “patrocinador” do interesse. Um cubo de boa marca varia de R$ 15 a R$ 260, de acordo com a complexidade do brinquedo. Recentemente, um brasileiro postou no YouTube o vídeo em que leva sete horas para montar um objeto de 17 faces, que mal conseguia manusear.

Fã de passatempo abre loja e vira importador de brinquedo

Em matéria de cubos mágicos, Diogo Mateus da Silva é a principal referência em Belo Horizonte. Não há adepto do brinquedo na cidade que não conheça o proprietário da loja virtual Cia. do Cubo Mágico, que funciona há seis anos. Ele se interessou pelo passatempo a partir do momento em que viu o filme “À Procura da Felicidade” (2006). No longa, o sucesso do personagem de Will Smith está atrelado ao quebra-cabeça. Logo, porém, Diogo esbarrou num problema: não encontrava no mercado exemplares de boa qualidade. “Só havia cubo que travava facilmente, vendido a R$ 1,99. Aí enxerguei uma possibilidade de negócio”, destaca o vendedor, que importa da China todos os 60 modelos de pronta-entrega. “Há outros, mais complexos e caros, que vendo por encomenda e levam cerca de dois meses para chegar”, explica.

Competição desafia participantes a resolver quebra-cabeça com os pés

Em Belo Horizonte, apesar de o passatempo ganhar novos adeptos, não há competições como em São Paulo, onde acontecem desafios curiosos. Dentre eles, está o de montar o cubo com os pés. Há também quem prefira aumentar ainda mais a dificuldade da brincadeira, vendando os olhos. Nesse caso, o importante é a boa memorização. “Tenho uma memória ruim. E a técnica que aprendi, criando histórias para o embaralhamento do cubo, ajudou bastante”, observa Felipe Costa, que, após concretizar o desafio, confessa ter perdido um pouco do estímulo. “Há três meses deixei de montar, mas quero voltar, usando modelos maiores. O problema é que eles são caros”, assinala. Já a colega de passatempo, Júlia Felipe, terá que sair de Minas para realizar o sonho de competir. Depois de criar gosto pelo brinquedo há dois anos, ela virou referência para outros adolescentes. “A mãe de um garoto me ligou dizendo que queria um cubo igual ao da Júlia”, relata o pai dela, Maurício.