Quando é para promover seus valores, o mineiro exibe uma “elegância recatada até para ser feliz”. A definição é do músico maranhense Zeca Baleiro e é a ela que Suely Machado, diretora artística do grupo de dança 1º Ato, recorre ao justificar a necessidade de pôr no palco a cultura popular do Estado e “levá-la para o mundo”.

O título do novo espetáculo – “Terreiro”, em cartaz no Teatro Bradesco – deixa bem claro a intenção da diretora, entendendo esse espaço, comumente visto em casas de interior, como lugar de “encontros, festejos, rezas e devoções”. E a apresentação nada mais é do que uma grande homenagem aos “artistas anônimos”.

Eles estão nos congados, cortejos, reisados, nas folias de Reis e festas para a Nossa Senhora do Rosário. “Somos um Estado grande, essencialmente rural ainda. E, se você afastar 50, 80 quilômetros dos grandes centros, encontrará esses terreiros. Quanto mais próximos estivermos de nossas raízes, mais universais nos tornamos”, registra.

Ancestralidade

O desafio foi juntar esse farto material e fazê-lo dialogar com a dança contemporânea. Para tanto ela contou com três convidados especiais: a cantora Titane, o coreógrafo João Paulo Gross e o bailarino Ruan Lopes, oriundos de várias regiões de Minas. “Não é um roteiro linear. Usamos imagens e quadros par falar dessa ancestralidade

Suely assinala que as raízes africanas estão presentes na bagagem de todos e na origem dos festejos. “Negar isso é negar a nossa essência. Em Pernambuco, o frevo e o maracatu há anos entraram na música contemporânea. Os baianos também fazem isso. Em nosso caso, vejo que temos uma rica tradição e alguns cantores que a divulgam, mas sem entrada na mídia”, analisa.

Correria

Além da comemoração típica dos terreiros, o espetáculo também celebra os 34 anos do 1º Ato, lembrados justamente em março. Ainda não é possível falar em 35º aniversário, pois Suely prefere “pensar e viver o presente” – ainda mais após estrear três espetáculos em seis meses, uma “correria” incomum na história do grupo.

Em setembro, a companhia apresentou “Três Luas”. Depois foi a vez de “Passagem”, em janeiro. “Fizemos coisas que são sequer parecidas. Essa é uma marca do grupo”, destaca a diretora, que responsabiliza a realidade política e econômica do país pela apresentação de três espetáculos em espaço tão curto de tempo.

Ela ressalta que a companhia foi contemplada em quatro editais, mas que os recursos só foram cair na conta meses depois, quase simultaneamente. Não foi possível fazer um planejamento de preparação e lançamento para cada um dos espetáculos, já que, junto com o dinheiro, veio também o prazo apertado para levá-los ao palco.
 
Serviço: “Terreiro” – No Teatro Bradesco (rua da Bahia, 2244). Dias 11, 12, 13, 18, 19 e 20 de março. Sextas e sábados, às 20h; domingos, às 19h. Ingressos: R$ 40 (inteira), R$20 (meia).