As releituras nunca estiveram distantes do trabalho da Nação Zumbi. Desde a época de Chico Science, o grupo pernambucano vez ou outra imprime seu DNA musical em pérolas como “Maracatu Atômico”, “Todos Estão Surdos” e “Quando a Maré Encher”. Depois, veio ainda o Los Sebosos Postizos, projeto paralelo da banda, dedicado ao repertório de Jorge Ben. Mas só agora, em 2017, os precursores do manguebeat realizaram o sonho de gravar um disco de versões. 

Lançado no mês passado, “Radiola NZ – Vol. I” traz nove faixas que apresentam uma playlist afetiva de influências da banda. Abrindo com “Refazenda”, de Gilberto Gil, o disco passeia por outras brasilidades – como Tim Maia (“Balanço”), Secos e Molhados (“Amor”), Roberto e Erasmo Carlos (“Não Há Dinheiro Que Pague”, “Como Dois Animais na Selva Suja da Rua”) – mas também permeia o soul de Marvin Gaye (“Sexual Healing”), o ska do The Specials (“Do Nothing”) e o rock dos Beatles (“Tomorrow Never Knows”) e de David Bowie (“Ashes to Ashes”).

Cara própria

Em entrevista ao Hoje em Dia, Jorge Du Peixe conta que a escolha das faixas foi tarefa árdua. “Não foi fácil, cada um tem suas influências. É uma playlist de registro do que continuamos ouvindo até hoje”, conta o vocalista. “O legal é que você pisa em outro chão. E não tem essa de zona de conforto, porque não é simples fazer versões. Mas foi um processo prazeroso e o retorno do público tem deixado a gente bem feliz”, completa. 

Para o vocalista, o cuidado ao gravar versões é deixar uma marca e, ao mesmo tempo, respeitar o original. “O lance de versão é trazer sua perspectiva musical para uma obra de uma pessoa. Louvar o artista com todo o respeito e cuidado, mas colocando a sua cara”, afirma Du Peixe, revelando que versões como de “Refazenda” e “Amor” (que tem participação de Ney Matogrosso) tiveram o aval dos autores. “Eles não só autorizaram, mas ouviram e curtiram. Isso é muito gratificante”, diz. 

Du Peixe afirma que a Nação Zumbi vai circular pelo Brasil com o show de “Radiola NZ”, enquanto matura o material do próximo disco autoral, previsto para o segundo semestre de 2018. “Já temos algumas bases, mas estou escrevendo com calma, porque são tempos tenebrosos, de muito ódio, de muita mentira. Tem que tomar cuidado para a caneta não sangrar no papel”, finaliza.