Com a suspensão, pela segunda vez, do funcionamento das salas de cinemas em Belo Horizonte, devido ao aumento dos casos de Covid-19, o cardápio dos sites de streaming de filmes ganha maior interesse do público cinéfilo nas próximas semanas.

Para quem está à procura de “descobertas”, a página da distribuidora Supo Mungam pode ser uma opção interessante. Dedicada a produções independentes dos quatro cantos do mundo, ela acaba de disponibilizar o longa-metragem “Bamako”.

Realizado no Mali em 2006, com direção do mauritano Abderrahmane Sissako, é uma das obras mais importantes do continente africano, ao costurar um retrato de afirmação da cultura negra enquanto tece uma dura crítica ao sistema econômico mundial.

O que mais chama a atenção no filme é como Sissako realiza esta junção, valendo-se de um mesmo cenário – o quintal da casa de uma cantora onde, aliado aos fatos cotidianos, um tribunal se instala para discutir a maneira impositiva como o FMI age na região.

O espectador leva uns bons minutos para entender o que acontece ali, mas logo aquele tribunal improvisado toma uma força real, como num documentário, em que a seriedade do tema e os discursos eloquentes ganham primeiro plano.

O debate criado em meio ao mundo corriqueiro é muito simbólico, como se os interesses sociais e políticos não deixassem de estar presentes. A ideia é criar uma relação entre as ausências daquela sociedade e o que está se falando no tribunal.

O discurso é preenchido de significados  e rostos, com a grave situação econômica africana ocupando o quintal das pessoas, no lugar de ser um ponto de vista apenas, como várias vezes os “advogados de defesa” do FMI querem transparecer.

Exclusão
Há um nítido entendimento sobre o  valor de se ocupar um espaço para falar. “Bamako” serve a este propósito, como um canal, ainda que ficcional, para se dar voz às reais preocupações de um povo oprimido e excluído pelos países desenvolvidos.

Você pode não saber quem são as pessoas que deixam seu testemunho, mas a imponência como verbalizam a fratura de uma sociedade que sofreu com o processo de colonização e, posteriormente, com a expropriação econômica, é de grande beleza.

O quintal mostrado em “Bamako” é o mesmo onde o pai do cineasta passou grande parte de sua vida, estabelecendo uma importante conexão pessoal e ampliando a ideia de afetividade como chave para uma solução maior. É o que está em julgamento no filme.