GRAMADO - Era 1988. Daniel de Oliveira tinha 11 anos quando seu pai o levou ao Mineirinho para ver a luta de Maguila, então no ranking dos melhores lutadores na categoria peso-pesado, contra o americano Sammy Scaf. "Ia sempre ao Mineirão para ver o Galo, mas no Mineirinho foi a primeira vez. O Maguila estava no auge e, antes da luta, teve um shows de raios laser, que, na verdade, eram uma luzes verdes, bem 'old school'. Quando ele entrou no ringue, deu um soco no adversário, que capotou. A luta durou poucos segundos. Foi bom que ele ganhar, mas frustrante por ter sido tão rápido", lembra o ator.
 
O boxe, por sina, sempre flertou Oliveira, desde a época que morava num acampamento da empreiteira Mendes Jr. no Iraque até o dia em que, tomando banho, deu um murro na parede de azulejo e afirmou: "Vou fazer o Éder Jofre no cinema". Anos se passaram e o ator de filmes como "Cazuza", "A Festa da Menina Morta" e "Boca" finalmente realizou o seu sonho. Exibido no Festival de Cinema de Gramado, na serra gaúcha, na semana passada, "10 Segundos para Vencer", dirigido por José Alvarenga, o filme traz Oliveira no papel de um dos grandes nomes do esporte brasileiro.
 
Num luxuoso hotel de Gramado, onde estava com a esposa e atriz Sophie Charlotte, ele falou com a reportagem do Hoje em Dia sobre a preparação para o personagem, um projeto pessoal, chamado de "Homem Lama", que o levou, recentemente, a Bento Rodrigues, em Mariana, em que atravessou o local todo lambuzado com o barro vermelho que, misturado a dejetos da Samarco, provocou a maior catástrofe ambiental do país.  " Foi muito sofrido, porque toda aquela poeira, aquele minério, aquele bairro, estava em mim", revela o ator.
 

O cinema americano realizou vários filmes sobre boxe, muitos deles premiados, como “O Invencível”, “Touro Indomável”, “Rocky, um Lutador”, “Hurricane”, “Menina de Ouro”, “Ali”, “O Vencedor”. Você assistiu a estes filmes no trabalho de preparação fazer Éder Jofre?

O primeiro filme sobre boxe que vi foi “O Campeão”, quando estava no Iraque, naquela época da Mendes Jr. (o pai de Daniel trabalhava para a construtora).  O país estava em guerra ainda (com o Irã), porque foi em 1985 e a guerra durou foi até 1988. Ela acontecia mais na fronteira e a gente ficava no Sifão (próximo da cidade de Nassiriya), num acampamento brasileiro. Eu vi “O Campeão” lá e pirei. Tinha um amigo no acampamento e troquei com ele toda a minha coleção de Playmobil por um par de luvas de boxe. Na casa dele, o pai arredava os móveis e a gente dava umas porradas um no outro. Fizemos isso por quatro vezes e paramos porque já estava dando confusão. Esse foi o meu primeiro encontro com o boxe. Nunca mais vi o filme, nem agora, para a preparação de “10 Segundos para Vencer”. Assisti os filmes mais recentes, como “Creed”, além de “Touro Indomável”, que é um clássico. O “Rocky, o Lutador” também é incrível e um dia desses o mostrei para os meus meninos. Um trabalho emblemático, até pela carreira de (Sylvester) Stallone, pelo o que ele fez para produzi-lo.

DANIEL1

Ao lado da esposa Sophie Charlotte, Oliveira acompanhou a exibição do filme no Festival de Gramado

Já o Brasil não tem tradição na realização de filmes sobre o mundo dos esportes, o que representou um desafio a mais para a produção.

Realmente não temos essa tradição. Somos o país do futebol e há poucos filmes sobre o esporte. É difícil falar sobre futebol no cinema. Outro dia estava conversando com o Osmar (Prado, que interpreta o pai de Jofre no filme) de não ter um filme sobre a Maria Esther Bueno, que é contemporânea do Éder e foi uma das grandes tenistas do mundo. No caso do Éder, ele pode ser visto como um herói. Eu conheci muita gente no boxe e cada um tem a sua história particular. Eu fazia treinamento com o Cesário (Bezerra), e minha casa, e de vez em quando chegava uma galera da Rocinha que acordava às 5 horas da manhã, já treinava, ia trabalhar, voltava e fazia outro treinamento... O Éder tinha essa correria da vida. Geralmente quem procura o boxe é de família mais humilde. Vi um filme muito bom sobre o Maravilha, um boxer argentino (campeão mundial nos pesos leve e médio).  Cara, assista! Eu até falei para o Alvarenga e ele pirou com o filme. Uma das coisas interessantes do filme é que ele toma um soco e o tempo para ali. Geralmente isso acontece mesmo. Para por alguns segundos apenas, mas parece uma eternidade. E depois você pega no tranco. No filme, o diretor deu uma sensação de parada no tempo, cortando para a família dele na Argentina e depois com o Maravilha voltando para a luta. Em “10 Segundos”, até tem uma coisa de parada, na luta contra o Legrá, quando o Éder vai para as cordas depois de tomar um cruzado, chegando a colocar o joelho no chão, mas é salvo pelo gongo. Se tivesse mais três segundos, ele talvez tivesse perdido a luta.

"Comecei a me viciar em tomar soco na cara. O medo tinha passado e a sensação era boa, tanto de dar porrada como de tomar"

E como foi a preparação física para viver um lutador de boxe?

Depois que fiquei sabendo do filme oficialmente, treinei boxe quase todos os dias, antes mesmo de assinar qualquer contrato. Fazia por minha conta. Já fazia Krav Magá há muitos anos e, na academia, perguntei quem era o cara do boxe no Rio de Janeiro. Todo mundo falou para fazer com o Cesário. Liguei para ele e, no outro dia, já comecei o treinamento, 11 meses antes do início das filmagens. Quem iria botar a cara era eu e o boxe tem muita técnica, um mínimo de seis meses para você entender o jogo ali.

Você já conhecia a trajetória de Éder Jofre?

Esse filme começa lá trás, quando eu, ainda morando com a minha ex-mulher, a Vanessa (Giácomo), e fazia o “Boca” em São Paulo. Ela era empresariada antes por uma mulher chamada Fátima, que um dia foi empresária do Éder Jofre. E eu falei com ela que adorava o Éder, que tinha um DVD com as lutas dele. E por ser “Galo de Ouro”, já chamava a atenção (risos). Com esse apelido... (risos) Foi o (autor de novela) Benedito Ruy Barbosa quem deu esse apelido para ele. Um dia, em São Paulo, estava tomando banho e dei um soco no azulejo.  E disse: “Vou fazer o Éder Jofre no cinema!”. Aquilo me contaminou de tal forma que eu me arrepiei todo e, por intermédio da Fátima, eu liguei para o Éder. Falei que era o Daniel de Oliveira, que tinha feito o “Cazuza” e que talvez ele não me conhecesse, mas que gostaria de interpretá-lo no cinema. Ele me respondeu: (imitando a voz) “Já tem um cara aí fazendo um negócio de cinema meu aí”. Era o Thomas (Stavros, roteirista de “10 Segundos”) e fiquei decepcionado. Desliguei o telefone e esqueci aquela história. Depois, voltando do Projac, eu já estava com a Sophie (Charlotte) e iria pegá-la em casa para irmos a uma festa de 40 anos da Camila Morgado. Parei num posto de gasolina para abastecer e chega uma mensagem de meu professor de Krav Magá, com uma matéria que dizia no título: “Daniel de Oliveira cotado para filme de Éder Jofre”. Como assim? Cotado nada, sou eu, pô! Já era Éder Jofre há oito anos! A direção seria do Rogério Gomes, o Papinha, e, curiosamente, naquela mesma noite, eu o encontro na tal festa. Contei a história do chuveiro e ele me perguntou se eu queria fazer. O Papinha acabou saindo e entrando o Alvarenga... E chegamos aqui. A vida foi orquestrando tudo para acontecesse isso.

"Meu treinador falou: você está pronto. E perguntou se eu queria fazer uma luta. Eu até fiquei tentado, mas achei melhor deixar só para o filme"

Você já interpretou muitos personagens baseados em pessoas reais, como Cazuza, Frei Beto, Santos Dumont e Hiroito de Moraes. As dificuldades devem ser muito maiores que num filme com protagonistas “inventados”.

Cazuza foi mais ainda, porque ele está na memória recente, no You Tube, no rádio. Cazuza tem mais imagens do que o Éder. As gerações atuais não o conhecem. Chega um momento em que você tem que desmitificar o ídolo, NE? Eu tenho que ver o Cazuza aqui (põe a mão na altura dos olhos) e não aqui (acima da cabeça). É olho no olho. Eu ganhei um pôster da Lucinha Araújo (mãe de Cazuza) e, na época, aluguei um apartamento no Leblon só para fazer o filme. Sempre que acordava – a cama ficava no chão – eu levantava e ficava olhando no olho do Cazuza do pôster por um tempo. Quase meio que querendo ser ele, sabe. Quando me encaixava, quando já estava com a expressão meio parecida, começava o meu dia. Com o Éder foi a mesma coisa. No meu apartamento tinha um quartinho em cima, onde fiz uma parede com imagens de lutas e do pai dele. Tinha uma em especial que era um close e eu ficava olhando, para absorver a energia que aquela específica passava para mim.

Numa conversa anterior nossa, você relatou um projeto pessoal denominado “Homem Lama”, Em que pé ele está?

Está uma viagem! Porque eu fiz recentemente, na Amazônia, um Lama-Nascimento. Levei o Milton Nascimento para Novo Airão e fiz um “Homem Lama” com ele. Foi bem especial.  Esse projeto surgiu da preparação para “A Festa da Menina Morta”, quando eu vislumbrei um outro universo para mim. O Matheus (Nachtergaele, diretor) estava fazendo algumas improvisações de butô. A gente podia fazer o que quisesse, o que viesse na cabeça. No primeiro, amarrei uma galinha preta num pano, que ficava pendurada de cabeça para baixo, molhei uma sala inteira para as pessoas entrarem descalças e sentirem o molhado e fiz uma trilha sonora no gravador. No lençol, pus um monte de frases e desenhos e esse mesmo tecido virou também um manto do meu personagem no filme. Em outro exercício, eu fui ao rio Negro, peguei uma lama e fiz uma performance, passando-a em meu corpo. Fiz toda uma mise-em-scène em que, no final, chorei pra caramba ao tirar a lama. Além de descobrir um personagem para o filme, tinha acabado de fazer um personagem e que vou levar para a minha vida. Comecei fazendo meio de brincadeira, tentando entender o que era aquela energia da lama. Depois chamei dois amigos para filmarem o que chamei de “improvisos ritualísticos”, que consiste em ir para um local, pegar a lama, me benzer e cantar baixinho, para mim mesmo, até chegar à meditação. Gastava em mim todas as sensações . Na primeira vez que fizemos um “Lama” mais profissional, demorou mais ou menos três horas. Eu ainda quero fazer muitos “lamas”, até o final da vida. Mas a ideia é, quando chegar a uns 50 e poucos anos, eu pegue todas essas imagens e lance alguma coisa.

"Se eu colocasse realmente a maneira de Éder falar, as pessoas achariam que não era daquele jeito. Dei uma suavizada, porque era bem paulista do Peruche"

Fale mais dessa participação do Milton Nascimento.

Foi incrível! A coisa mais linda do mundo! O Milton foi com o Augustinho, filho dele, e, na volta do “Lama”, ele estava eufórico após receber a notícia de que o garoto poderia usar o sobrenome Nascimento. Eu já tinha batizado uma árvore enorme de Nascimento, espalhando para todo o hotel que, se alguém perguntasse, o nome dela era Nascimento. Depois mudei para Nascimentos, em homenagem aos dois, e tive que espalhar de novo. Até fizemos um clipe para a música “A Lua Girou”.  Milton estava com o vilão, eu no pé dele – sem a câmera me mostrar – e o rio Negro ao fundo.  Na segunda vez que cantou, a lua abriu aquele compasso.  Fiz um “Lama” bem triste na tragédia da Samarco. Rapaz, fui lá em Bento Rodrigues, na casa de um morador, peguei a lama da região, que é bem vermelha, e um saco de minério de ferro. Desta vez, fui com uma saia de seis metros, pois levamos um drone e, visto do ano, minha saia iria se prolongar e parecer um inseto. E realmente ficou assim, deslizando por dentro da cidade. Esse foi um dos mais tristes, porque eu realmente senti a energia de lá. Quando eu passo a lama em mim, aquele local vai conversando comigo. Em frente a uma casa, eu parei em frente por uns dez minutos para ter a educação de entrar. Para entrar numa casa destruída, que um dia pertenceu a alguém, eu precisava deste ritual. Foi muito sofrido, porque toda aquela poeira, aquele minério, aquele bairro, estava em mim.

 
daniel

Há oito que o ator vislumbrava a possibilidade de encarnar o boxer na tela grand