O que há em comum em mulheres como Tomie Ohtake (1913-2015), Cora Coralina (1889-1985), Adélia Prado, Dona Jandira, a artista plástica Virgínia Braccini e a escritora Elizabeth Rennó? A resposta é o talento revelado na maturidade. Nas artes plásticas, na literatura e na música, só tiveram as habilidades artísticas mostradas ao mundo após cuidarem de maridos e filhos ou de outra carreira “convencional”.

Guerreiras, venceram o tempo, atingiram a meia-idade e despertaram para um novo olhar sobre a vida: acolheram com força e fervor os dotes artísticos que guardaram ao longo da vida.
Tomie Ohtake, falecida em 12 de fevereiro, aos 101 anos, começou nas artes plásticas quando estava prestes a completar quatro décadas de vida. Cora Coralina publicou o primeiro livro, “Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais”, aos 75 anos, e a segunda edição da obra, em 1978, mereceu rasgados elogios de Carlos Drummond de Andrade.

Outra poetisa, Adélia Prado, mineira de Divinópolis, também na casa dos 40, enviou o manuscrito “Bagagem” para Affonso Romano de Sant’Anna – o mesmo que, anos depois, na década de 1980, escreveria que “A mulher madura está pronta para algo definitivo”, em memorável artigo para o “Jornal do Brasil”. “Bagagem” era o que não faltava à divinopolitana Adélia, que a partir da primeira publicação, em 1976, ganhou o mundo e não parou de escrever.

Nesse seleto grupo há espaço para Dona Jandira, que até pouco tempo atrás nem sabia que tinha tanto talento. A cantora, hoje com 75 anos, foi “ descoberta” aos 66, e garante, com empolgação: “Dessa moda não largo mais”. Corria o ano de 2004, quando Dona Jandira encontrou o músico e produtor José Dias, que ficou encantado com a força e o talento dela – hoje reconhecidos em todo país. Dona Jandira soltou o vozeirão, ganhou a estrada e não parou mais.

Aquele encontro mudou a vida dela para sempre. “Foi Deus que me deu de presente isso e abracei com todas as minhas forças. Morava em Ouro Branco e participava de um projeto social destinado às crianças e adolescentes. Fui fazer um teste na ordem dos músicos para me credenciar e acabei sendo descoberta por José Dias Guimarães.

Ele se encantou com minha voz e achou que não podia ficar escondida. Então, inventou essa moda para mim, e acho que deu certo”, relata.

Essa guerreira, que nasceu em Alagoas e fincou pé nas Minas Gerais, tomou gosto pela coisa. Em 2008, lançou o CD “Dona Jandira”, e, em 2011, um DVD homônimo. No ano passado, comemorou dez anos de carreira. “Eu tinha uma outra vida, ligada à educação, e jamais pensei em ser cantora”, diz ela, que se apresenta na próxima quarta-feira, em um show em homenagem ao 8 de Março, Dia da Mulher, no Teatro Francisco Nunes.

Perto dos netos, sem abandonar a literatura, e talento com os pincéis após a aposentadoria

Nos tempos de menina, Elizabeth Rennó escrevia em diários, e, depois, já no ginásio, enviava artigos para jornais de Barbacena, na Zona da Mata. Porém, o desabrochar para a literatura veio mais tarde, aos 55 anos, com a dissertação de mestrado na Universidade Federal de Minas Gerais “A Aventura Surrealista de Lêdo Ivo: Invenção e Descoberta”, em 1985. Por interferência do poeta, a obra virou livro, passando a integrar a coleção Afrânio Peixoto da Academia Brasileira de Letras.

Depois de cuidar da família, elas ganharam notoriedade por meio da arte

“Enviei para o Lêdo Ivo e ele gostou tanto que decidiu publicar na coleção”, conta. A consequência foi imediata na vida de Elizabeth e o incentivo de que ela precisava para se jogar por inteiro na poesia, prosa e ensaios. Não parou mais. No currículo, são hoje 13 livros. E a produção é intensa e bem atual: em 2014, aos 84 anos, a autora lançou o livro de poesia “Quatro Estações Mais Uma”.

Antes, no entanto, vieram “Palavras e Parábolas” , “Ronda Universal” e “Cantata em Dor Maior”, todos de lavra poética, e a novela “Concha-Lua”. Ela também se aventurou pelo novo modo de se fazer versos, a “aldravia” – o poema é constituído numa linométrica de até seis palavras-verso.

Além disso, Elizabeth acumula funções, todas ligadas à literatura: é presidente da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais e presidente emérita da Academia Feminina Mineira de Letras e da Academia Mineira de Letras, onde ocupa a cadeira 21.

Como a maioria das mulheres, ela concilia isso tudo com a jornada em casa. “Sou dona de casa, avó, cozinheira. Mas não abro mão da minha poesia”, garante.

De corpo e alma aos 52 anos

Outra a revelar o talento na maturidade é a artista plástica Maria Virgínia Braccini, que, após longos anos dedicados à medicina, sobretudo ao Hospital das Clínicas da UFMG, em Belo Horizonte, se entregou, de corpo e alma, à pintura.

E o que começou como um impulso, a vontade de desenhar, tornou-se hoje uma profissão para o resto da vida. “Eu era médica-anestesista e, de repente, ganhei uns cadernos e comecei a desenhar. Depois disso, resolvi entrar para a faculdade de Artes Visuais na Guignard, em 2007, aos 52 anos. Aposentei-me no hospital e comecei uma vida nova, passei a vivenciar completamente a arte”.