“A mentira é sempre mais interessante do que a verdade”, sintetizou certa vez Federico Fellini, ao comentar o que mais lhe interessava no fazer cinema. Um dos maiores nomes da história desta arte, o realizador italiano que virou verbete de dicionário estaria completando hoje 100 anos de vida.

Uma vida que, interrompida em 1993, após assinar 24 longas-metragens (incluindo os episódios de obras coletivas), foi expressa com cores e fantasia em filmes premiados – Fellini foi o diretor que mais ganhou o Oscar de produção estrangeira, com “A Estrada” (1954), “Noites de Cabíria” (1957), “Oito e Meio” (1963) e “Amarcord” (1973).

Vencedor também de uma estatueta especial, no ano de sua morte, o diretor fez valer a máxima de Leon Tolstói – “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Em quase todos os seus trabalhos, ele criou narrativas baseadas em suas memórias, elevadas à categoria de sonho na maneira como as transportava para as telas. 

Assim, em “A Doce Vida” (1960), filme que marcou a primeira parceria dele com Marcello Mastroianni, outro ícone do cinema italiano, incluiu, na história sobre a decadência da burguesia, um marinheiro inspirado em seu pai. Os muitos tipos conhecidos em sua cidade natal, Rimini, também ganharam lugar em suas tramas, como em “Amarcord”. Em vários países, ao título se juntava Fellini, como garantia de uma visão sem igual.

Extravagância

Nos dicionários, felliniano virou sinônimo de um doce exagero, pincelando com cores extravagantes os habitantes de sua memória. Além de Mastroianni, que se transformou numa espécie de alter ego do cineasta, teve na esposa e atriz Giulieta Masina e no compositor Nino Rota alguns de seus parceiros mais constantes.

Fellini tinha uma predileção por personagens femininos, como prostitutas, matronas e freiras. Os melhores trabalhos do diretor devem um pouco a este olhar afetuoso dirigido às mulheres, donas de grande compaixão. Giulieta protagonizou dois destes momentos, em “A Estrada da Vida” e “Noites de Cabíria”.

Mesmo quando Mastroianni estava em cena, algumas das melhores cenas eram divididas com atrizes. Como falar de Fellini e não se lembrar da sequência passada na Fontana di Trevi, em Roma, em “A Doce Vida”, quando a atriz vivida por Anita Ekberg entra na famosa fonte para se banhar, trajando um decotado vestido preto. 

O cinema, para Fellini, era um “modo divino de contar a vida”. A religião, por sinal, estava sempre de alguma maneira presente em sua obra. Gostava de dizer que, “se é verdade que a religião, por um lado, liberta o homem do medo, por outro lado gere-o fortemente”. Mas seu maior credo era mentir deliciosamente. O crítico de cinema brasileiro Inácio Araújo observou que a filmografia dele é um “elogio notável do artifício, da necessidade de ir ao falso para buscar o verdadeiro”.

Não por acaso, Damian Pettigrew fez um documentário sobre o mestre italiano, a partir de dez horas de entrevistas, e botou no título “Fellini – Eu Sou um Grande Mentiroso”. É preciso dizer que nunca uma mentira foi tão bem contada e aceita como na trajetória do realizador.

O canal Telecine Cult (TV por assinatura) fará maratona com três clássicos de Fellini, a partir das 16h45