Diretor de 'O Sexto Sentido' discute questões atuais em novo filme

Paulo Henrique Silva
phenrique@hojeemdia.com.br
02/08/2021 às 20:55.
Atualizado em 05/12/2021 às 05:34
 (UNIVERSAL/DIVULGAÇÃO)

(UNIVERSAL/DIVULGAÇÃO)

Os filmes terror “O Diabo Branco”, “Tempo” devem ter sido concebidos antes da pandemia. Mas não dá para negar que tanto a produção argentina, com estreia nesta quinta, quanto o novo trabalho de M. Night Shyamalan, já em cartaz nos cinemas, refletem esse momento pós-coronavírus, a partir do estabelecimento de antigos temores e outros que foram reciclados e se acomodam perfeitamente àquilo que podemos definir como “terror político-econômico”.

Quando forem revistos, daqui a dez anos, a impressão pode muito bem ser outra; agora, ainda na posição de quem foi pego de surpresa e ver um vírus espalhar pelo mundo e matar milhões de pessoas, é possível enxergar uma conexão importante entre eles, ao refundir o medo do desconhecido, gerado por uma aposta no novo e barato, abrindo mãos de escolhas óbvias e, supostamente, mais seguras.

Enquanto os amigos da produção argentina enfrentam o desconforto de uma viagem longa para seguir uma indicação suspeita de um amigo do pai de um deles, sobre uma sossegada pousada à beira de um lago, em “Tempo” essa oferta vem de uma promoção que chegou na caixa de e-mail de uma mãe que, ao pôr os pés no hotel, comemora dizendo “não acreditar que veio da internet”.

Embora o resort numa ilha paradisíaca se mostre de primeira linha, não havia qualquer informação anterior sobre ele. Todos foram “no escuro” para o que acabou se transformando numa aventura perigosa, fruto de uma escolha equivocada. Ligado ao fato de que, em ambos, eles estão fora de seu habitat, nos damos conta da ressurreição de um sub-gênero muito comum nos anos 80 e 90, de forte xenofobia.

Principalmente quando notamos que, nos dois filmes, a população local tem conhecimento sobre os estranhos fenômenos e agem para não só escondê-los como também atrair novas vítimas. Esse viés tem relação com outro elemento pandêmico, sobre governos que escolheram como enfrentar o vírus, sem qualquer padrão a seguir. A autoridade é, assim, um ponto de desconfiança.

Na obra de Shyamalan, essa contestação é mais evidente nos minutos finais, quando a relação entre humanos e “além” ganha outros interesses. É, no mínimo, perturbador, especialmente após ouvirmos teses sobre imunidade de rebanho e relativização do número de mortes. Essa crítica atual, estampando um aviso escancarado para não acreditarmos em fake news, é o que melhor Shyamalan oferece nesse filme.

Compartilhar
Ediminas S/A Jornal Hoje em Dia.© Copyright 2022Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por