As colunas sociais presentes em jornais de cidades do interior podem revelar muito mais sobre uma sociedade do que as fotografias da high society ali publicadas. A forma com que o jornalismo regional dialoga com a política local é o mote do livro “A Metrópole Imaginária” (Ed. UFPR), de André Azevedo da Fonseca, professor de Comunicação na Universidade Estadual de Londrina (UEL).

Para tratar dessa relação entre jornalismo e política, o pesquisador revisita a realidade vivenciada em meados do século XX, na cidade onde cresceu: Uberaba, no Triângulo Mineiro. A liderança do escritor e educador Mário Palmério na região serve como linha condutora para a análise realizada a partir do material colhido em três jornais da região.

Defensor da transformação do Triângulo Mineiro em um estado independente, Palmério ganhava reverberação de diferentes formas no jornalismo regional.

“Ao consultar os jornais da época, percebi que, no decorrer dos anos 1940, e sobretudo nas eleições de 1950, o noticiário local sobre a atuação profissional e política de Mário Palmério empregava termos literalmente sagrados para defini-lo. Naqueles tempos de crise social, econômica, política e identitária, o jovem professor passou a ser representado como um herói salvador que se sacrificava em uma cruzada contra o governo estadual”, explicou André.

O objeto de estudo acaba sendo revelador sobre uma temática bastante estudada nos cursos de Comunicação Social: as entrelinhas do discurso jornalístico. Para compreender a forma com que os jornais abordavam o ideário separatista, André analisou fotografias e suas legendas, textos e ausências.

“A imprensa não é considerada apenas uma testemunha de seu tempo: mas um agente, um legítimo protagonista, com interesses próprios, às vezes convergentes, às vezes antagônicos aos interesses dos governantes. Diante de todos esses condicionamentos, sabemos que a realidade não é revelada de forma objetiva na imprensa. A interpretação dessas fontes exige uma leitura crítica dos documentos”, afirmou.

Especialmente os elogios dirigidos a Palmério e outros membros da sociedade rica e culta local foram objetos de análise na pesquisa, desenvolvida ao longo do doutorado do pesquisador, defendido na Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Para André, essa dinâmica verificada em Uberaba também pode ser observada em outras cidades do interior brasileiro. “Em qualquer lugar é possível identificar dinâmicas análogas. Os circuitos autocongratulatórios que observei naquela cidade são estruturais em outros períodos e lugares. As elites dominantes sempre se mostraram conscientes sobre a necessidade da construção de uma imagem mistificada para si mesmas. Ao lado do poder econômico e político, o domínio do imaginário é fundamental”.