Ai Weivei corta cabelo e faz comida nos campos de refugiados, além de ajudar aqueles que, após quase perderem a vida atravessando o mar Mediterrâneo, desembarcam no litoral grego. Essa busca constante do diretor chinês de “Human Flow – Não Existe Lar se Não Há para Onde Ir”, outra estreia desta semana, em interagir com o tema do documentário é curiosa.

Algumas vezes ela surge desnecessária, já que o assunto é por si muito forte, com cerca de 65 milhões de pessoas no mundo deslocadas de suas casas, devido às guerras, à fome e às mudanças climáticas. Mas também é compreensível quando o vemos dizendo a um refugiado iraquiano que “o respeita”. Weivei não quer apenas apontar um problema, mas chamar o público a participar.

Para o cineasta, é uma questão de humanizar-se, de esquecer as fronteiras e as nacionalidades, voltando a enxergar nestes rostos pessoas como nós. Delas foi tirado o direito de viver em suas terras e, por anos, foram submetidas a condições indignas, em campos de refugiados. Os relatos são desalentadores, mostrando uma situação que piora a cada dia.

Os países europeus, autores de leis que, após a Segunda Guerra, protegiam os refugiados, entraram em colapso com a quantidade crescente de migrantes. Agora eles pagam bilhões a Turquia para contê-los. Weivei não faz um filme político, sem se preocupar em denunciar governantes – Donald Trump, que engrossou as medidas antimigratórias nos Estados Unidos, mal é citado.

Para o cineasta, eles estão com medo, esquecendo-se, por exemplo, que os Estados Unidos foram criados essencialmente por imigrantes. “Human Flow” surge, desta forma, como uma lembrança, dolorida e ao mesmo tempo esperançosa, do que somos e de que precisamos nos abrir ao outro, seja de qual origem for, estampado no esforço de Weivei em se doar aos seus personagens.