Documentário mostra cinema desativado como retrato de um Brasil de contrastes

Paulo Henrique Silva
phenrique@hojeemdia.com.br
06/06/2021 às 22:11.
Atualizado em 05/12/2021 às 05:06
 (BRETZ/DIVULGAÇÃO)

(BRETZ/DIVULGAÇÃO)

Ao entrar no Cine Marrocos já desativado e ocupado por dois mil sem-teto, em 2015, o cineasta Ricardo Calil percebeu que estava diante de dois extremos característicos do Brasil. “Era um cenário muito fascinante, pelos contrastes. Ainda havia toda uma arquitetura, com esculturas de gesso. Ao mesmo tempo havia dormitórios, separados por divisórias de escritório. A sala do cinema em si estava trancada, totalmente pelada, sem cadeira e tela. A sala de projeção com máquinas antigas sem funcionar”, lembra.

Além da melancolia em ver uma triste realidade que acometeu salas de rua em todo o Brasil, Calil encontrou no cinema paulistano – considerado o mais luxuoso da América do Sul em 1954 – o tema de um documentário, já em cartaz nos cinemas e disponível nas plataformas digitais. “A ideia de um cinema que vira lar para as pessoas me pareceu muito fascinante”, assinala o realizador, que faturou o principal prêmio do Festival É Tudo Verdade, em 2019, com “Cine Marrocos”.

Calil recorda que, já naquela primeira visita, bateu-lhe o desejo de reabrir a sala, mesmo que provisoriamente. “Primeiro me veio a vontade de fazer o encontro entre estes dois tempos do cinema, o do auge dele e deste momento do abandono. Não só entre os tempos, mas entre a vida dos moradores e a dos personagens (dos filmes exibidos) e também entre a ficção e a realidade, entre o passado e o presente”, observa o cineasta, que viu a ideia de fazer uma oficina com os sem-teto crescer dentro do processo.

“Filmamos muita coisa sobre a história do cinema e do festival de 1954 (responsável por trazer ao Brasil várias estrelas do cinema da época). No final das contas, na montagem, a gente estava tão fascinado pela história de vida dos moradores da ocupação que o prólogo foi perdendo espaço para a vida deles. A oficina com 30 moradores foi uma experiência profunda e intensa. Virou um encontro muito transformador e, em alguns casos, uma amizade”, registra Calil.

“Tenho contato com todos aqueles que mais aparecem no filme. Hoje só um está morando em ocupação. Após a reintegração de posse feita pela  Prefeitura, o Valter foi morar na rua e depois consegui ir para uma outra ocupação no centro de São Paulo” (Ricardo Calil)

 ara o realizador, fazer o filme representou um processo muito rico de descoberta destas pessoas, com histórias de vida muito diversas e fascinantes. Ele sabia que havia no local  refugiados africanos, imigrantes latino-americanos e uma maioria de brasileiros, mas não passava pela cabeça dele qual era o perfil. “Tinha uma parte que estava numa situação de vulnerabilidade, morando na rua, mas também muita gente que teve uma vida melhor e acabou decaindo por motivos diferentes, como depressão, problema de saúde e perda dos pais”.

No meio das oficinas, por exemplo, Calil descobriu que entre os moradores-atores havia um jornalista congolês, filho do ministro da Defesa que foi assassinado pelo ditador do país. Também encontrou Valter, um dos personagens mais interessantes de “Cine Marrocos”, que foi iluminador de teatro, trabalhando para o celebrado grupo Tapa. Ele entrou em depressão e foi parar nas ruas de São Paulo. “O resultado do filme é perceber que pessoas que sofrem muitos estigmas são muitos mais profundas e complexas do que o senso comum imagina”, analisa.

Belo Horizonte também viveu decadência dos cinemas de rua

Assim como em São Paulo, os grandes cinemas de rua da capital mineira viveram momentos de  efervescência, com a abertura, na primeira metade do século passado, de salas imponentes com mais de mil lugares, e uma forte queda ocorrida a partir do final da década de 1970, gerada pela decadência da região central.

“A desorganização dos grandes centros foi uma realidade brasileira na época. Todos os cinemas inaugurados nos anos 30, 40 e 50  fecharam as portas nas décadas de 80 e 90. A partir dali o cinema de rua no Brasil passou a virar uma raridade”, destaca Ataídes Braga, autor do livro “O Fim das Coisas”, sobre a histórias das salas de BH.

Ele lembra ainda que, no final dos anos 70, o gênero hegemônico de filme eram as pornochanchadas, com as luxuosas salas se vendo a exibir, obrigatoriamente, as comédias eróticas. “Depois veio a radicalização, com o cinema de sexo explícito. Salas que não foram criadas para passar um tipo de programação viram seu público afastando”.

Ataídes Braga prepara lançamento de livro sobre o Savassi Cineclube e oferece aulas online sobre cinema, especialmente sobre a produção brasileira (inscrições pelo e-mail ataides@artesaostagarelas.com.br)

Com a reorganização das cidades, destaca Braga, os cinemas se deslocaram para lugares seguros, com tamanhos menores, sendo instaladas fundamentalmente em shoppings. “Em BH, você tinha salas que eram específicas de determinado tipo de filme, com o Palladium, por exemplo, recebendo os mais românticos, e o Brasil com as comédias”, assinala.

O Brasil, por sinal, hoje transformado em centro cultural, chegou a ser o terceiro cinema do país em média de público. “Havia um público cativo, que tinha o seu ritual e uma relação com o espaço físico. Quem viu filmes nestes lugares não tem a mesma relação com as salas de hoje. Estas nem podem ser consideradas cinemas, fazendo parte de um grande complexo ligado ao consumo”, lamenta.

Com isso, a cinefilia deixou de existir, representada pela “paixão radical pelo filme e pelo espaço”. Hoje o professor e pesquisador se  coloca na posição de “sofredor”, vendo muito mais filmes que antigamente, mas sem qualquer “tesão”, vendo filmes no aparelho celular. “Jamais terão a mesma afetividade,  troca e espacialidade que experimentamos em outros tempos”.

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