Espécie de eminência parda do levante Tropicalista, as credenciais de Torquato Neto frequentemente ficam restritas aquele front, como se cristalizado no espaço e tempo em que assinava a coluna “Geléia Geral” no jornal Última Hora (o braço jornalístico do movimento), as letras de clássicos como “Louvação”, com Gil, ou “Mamãe Coragem”, com Caetano ou na imagem da capa do disco-síntese, “Tropicália ou Panis Et Circensis”, com uma pose desafiadora, ao lado de Gal Costa.

Mas, como toda entidade secreta mas fundamental de um contexto mais amplo, Torquato ficou meio obscurecido pela história com H, aquela que mitifica os mais visíveis. O documentário “Todas As Horas do Fim”, que tem pré-estréia hoje em Belo Horizonte e entra no circuito a partir de 8 de março, tem como centro principal lutar contra a invisibilidade do piauiense. “Ele nasce de uma percepção minha de que Torquato é uma figura importante mas pouco reconhecida artisticamente – e até pouco conhecida em geral. As pessoas tomam um susto com o relevo da produção dele, vimos isto quando circulamos o filme nos festivais em 2017. Então o propósito é jogar luz sobre sua obra, que se revela muito necessária, para um público maior. Ela merece isso”, defende Marcus Fernando, diretor da película junto com Eduardo Ades.

Propondo um arco narrativo que captura desde a infância do artista em Teresina, até a precoce partida, aos 28 anos (seu suicídio em 1972, no Rio de Janeiro), o filme traz o ator Jesuíta Barbosa lendo poemas e depoimentos de nomes como Jards Macalé, Caetano Veloso e Gilberto Gil. É deste último, aliás, uma declaração fundamental sobre o biografado, posicionando-o como “ideólogo” tropicalista, um dos sujeitos que orientaram aquele carnaval, junto a nomes como Rogério Duarte, enquanto Gil assume que o ele queria saber era de música.

Prifissão Poeta

“Se você for ver as letras dele, são essenciais para o ‘desenho’ tropicalista. Torquato era poeta 24 horas por dia, era evidente esta sua visão de mundo”, garante Fernando. “E é curioso porque sua produção nunca foi publicada sistematicamente, apenas muito recentemente tivemos algumas compilações”, diz, aludindo à obras como os volumes “Torquatália”, editados pela Rocco, em 2005.

“A principal forma de expressão dele era a poesia”, ecoa Ades. “Sempre atuou como poeta, em todas as suas formas de expressão, seja no cinema, nas letras de música, nas colunas de jornal; uma linguagem muito anárquica, transgressora. Mas ele nunca sistematizou isso em livro, quando em vida. Estava até pensando em fazer isso antes de morrer, encontramos isso em seus arquivos. Ele era bastante organizado, encontramos várias versões de um possível livro, ele estava sempre reformulando”.

Piauí

O trabalho de arqueologia poética, responsável também por ajudar a compôr visualmente o filme, foi um dos aspectos importantes da pré-produção. “Existe um acervo grande, guardado por um primo dele, lá em Teresina”, diz Fernando. “Passamos dias enfurnados nesta sala, voltei com mais de 1200 fotos de rascunhos, poesias, cartas, recortes”.

Imortalizados na homenagem que Caetano fez sob o impacto da perda de Torquato, em “Cajuína” ("Apenas a matéria vida era tão fina/ E éramos olharmo-nos intacta retina/A cajuína cristalina em Teresina”), a relação entre o artista e sua cidade-natal também preenche um espaço importante na narrativa.

Do rapaz rebelde, de cabelos longos, que chocou a sociedade de uma cidade pouco notada na cartografia cultural do país, Torquato se transformou na maior referência artística do Estado. “Hoje ele foi alçado ao status de celebridade local, a maior delas até o surgimento do Whindersson Nunes”, lembra Ades, rindo. “É nome de rua, de teatro, foi incorporado”. Uma redenção que demorou décadas, mas que o documentário teve ajudar a testificar ainda mais.