Em determinado momento do espetáculo “Calango Deu!”, após um grande silêncio, a personagem Dona Zaninha observa, com toda a “sabência” de uma senhora do interior mineiro, que “quando você não sabe para onde ir, lembre-se de onde veio”.

A frase, extraída de um contador de histórias africano (conhecido como griot), é a síntese da peça, em cartaz há nove anos, e de um momento no país que, segundo a atriz mineira Suzana Nascimento, as pessoas parecem ter perdido as suas referências.

“Está todo mundo transtornado. A pandemia sacudiu tudo. Às vezes, voltar para o lugar de onde viemos pode ser o nosso fortalecimento”, registra, que, no último ano, esteve ao lado da família, em Juiz deFora, após seu pai adoecer gravemente.

Ela retorna ao Rio de Janeiro, onde fixou residência há 20 anos, para fazer a primeira transmissão digital de “Calango Deu!”, entre quinta-feira e domingo, às 20h, de forma gratuita e ao vivo, pelo canal de Dona Zaninha no YouTube.

“A personagem não fala apenas do interior do Brasil. Fala também do interior da gente, ao contar histórias profundas com humor. Costumo dizer que os espectadores irão rir durante um bom tempo e, ao final, provavelmente vão chorar”, assinala Suzana.

Dona Zaninha é “uma colcha de retalhos de pessoas que eu conheci ao longo da vida”, numa pesquisa de cinco anos com contadoras de histórias do interior que nunca tinham passado por um banco de escola e professores universitários de cultura popular.

Dos causos, benzeções, simpatias, receitas e vocabulários típicos do universo interiorano, Suzana extraiu uma personagem que, primeiramente, se apresentou em contações de histórias até ganhar um espetáculo próprio, em formato de monólogo.

A música “Flor, Minha Flor” – criada pelo Grupo Galpão para a peça “Romeu e Julieta” –está presente na trilha sonora. Para Suzana, marca um reencontro com o passado, quando assistiu, aos 14 anos, a apresentação da trupe em Juiz de Fora e teve a certeza que seria atriz

“Durante muitos anos, eu participei do Simpósio Internacional de Contadores de Histórias, no Rio, E fui entendendo como a Dona Zaninha é muito querida por ter aquela sabedoria do interior que a gente esquece que existe, devido à urbanização louca que vivemos”, registra.

Redes sociais
Durante o primeiro ano de pandemia, Dona Zaninha fez vários vídeos e lives para as redes sociais. A transmissão on-line da peça, porém, representou um grande desafio, por ser muito interativa. “No presencial, os espectadores até subiam no palco para tomar um café”.

Se perde em alguns quesitos, “Calango Deu!” ganhou a oportunidade de ser realizada, pela primeira vez, numa autêntica casa histórica – a Casa das Romãs, casarão tombado pelo Patrimônio Histórico, localizado no Alto da Boa Vista, no Rio de Janeiro.

“Ela tem muito a ver com o universo de Dona Zaninha. Durante a transmissão, vou percorrer os cômodos da casa, como uma cozinha com fogão a lenha e um espaço com oratório. É uma casa muito mágica, que irá trazer detalhes que enriquecerão muito a peça”, analisa.