Como ator estreante na direção, não se poderia esperar outra coisa de Bradley Cooper do que um filme que tivesse um forte acento na atuação. Em “Nasce uma Estrela”, cartaz a partir de hoje nos cinemas, os planos são quase sempre fechados nos rostos dos protagonistas – o próprio Cooper e a cantora Lady Gaga, numa interpretação surpreendente.
 
Para um drama que se assume, especialmente na segunda metade, como um musical, tal opção pode representar um suicídio, já que imagem e trilha sonora têm que andar juntas. A música carrega o papel de sintetizar as emoções do público e dos personagens e as imagens colaboram no sentido de transformar essa comunicação ainda mais catártica. 
 
Isso explica a razão de o filme cair muito depois da primeira hora de exibição. E também o motivo de ser tão interessante na parte inicial. Todo o foco dos movimentos iniciais recai na desconstrução do mito musical Lady Gaga, como se nos propusesse a conhecer a pop star pelo o que tem sob a maquiagem, as roupas extravagantes e a imagem de diva.
 
Ela surge “feia”. Sim, o próprio roteiro brinca com isso ao falar do nariz da cantora (Barbra Streisand, que fez “Nasce uma Estrela”, na década de 70, também tinha essa característica, digamos, avantajada). Os cabelos estão desalinhados, o rosto rechonchudo e, no tamanho, surge menor como jamais foi. É uma Lady Gaga mais real, podemos dizer.
 
Autobiografia
Por mais que Cooper se esforce – ele tem, é bom que se diga, uma grande performance como o cantor alcoólatra que destrói a carreira, papel que rendeu ótimos trabalhos a Jeff Bridges e Joaquin Phoenix – os olhos estão mesmo voltados para Gaga, como a artista ascendente. E já que estamos num campo próximo ao clichê (o artista desajustado) a personagem ganha um quê autobiográfico.
 
A relação passa a ser de voyeurismo, nos satisfazendo com a “nudez” de Gaga, em estado bruto, em oposição a um voraz mercado cultural que nos apresenta produtos prontos para consumo imediato. E, em certo sentido, dentro da narrativa, ela parece se culpar por isso, vendendo a sua alma ao que a indústria de celebridades nos faz querer acreditar.
 
Verdade ou não, “Nasce uma Estrela” traz uma mudança de rumos na trajetória de Gaga, que torna crível a sua capacidade de reinvenção, de descolamento de um nicho musical em que parecia estar condenada. Resta saber se essa intenção é real e se a indústria permitirá essa virada. Como atriz e com um diretor sensível a sua espontaneidade, ela já exibe o cacife de Barbra para fazer carreira no cinema.