“Depois de sua casa, não há lugar mais seguro que o seu carro”, observa Gipson Mol, um dos empreendedores que estão trazendo de volta a Belo Horizonte e região metropolitana um tipo de entretenimento muito comum nos anos 70: o drive-in. Enquanto as salas de exibição estão proibidas de abrirem as portas, por serem lugares fechados e de maior propagação do novo coronavírus, a melhor forma de os cinéfilos matarem a saudade da telona é não sair de dentro do veículo.

 

Criado na década de 1940, nos Estados Unidos, e realizado em espaços abertos onde a poltrona é substituída pelo automóvel, ideal para tempos de isolamento social, o drive-in saiu das tumbas, em várias partes do mundo, para não deixar a magia da sala escura morrer. Em Minas Gerais, o formato ganhou duas frentes: uma comandada pelo grupo Cineart, que detém a maior rede de cinemas do Estado, e outra pelo produtor cultural Gipson Mol, que criou o Autocine Brasil.

 

“É um evento 100% seguro e que está sendo muito bem visto aos olhos do público, devido a este clima de nostalgia que ele traz, além de ser um programa diferente”, observa Thais Henriques, diretora da Cineart. O grupo saiu na frente: no último domingo fez a primeira exibição, em dose dupla, no Alphaville, em Nova Lima. Foram apresentados a animação “Pé Pequeno” e o drama musical “Nasce uma Estrela”. A programação segue de quarta a domingo, às 17h45 e 20h30.

 

Em breve, a rede inaugurará outro drive-in, no estacionamento do Mix Garden, também em Nova Lima. Thais quer levar a experiência para Belo Horizonte, especialmente para os estacionamentos dos shoppings onde a Cineart tem salas de exibição, mas esbarra no programa de flexibilização da Prefeitura, que ainda não permite a abertura de drive-in. Mol também está à espera de uma definição do executivo municipal para iniciar o seu projeto. O local já está definido: o Expominas.

 

O Autocine terá duas “salas” no Expominas, cada uma podendo abrigar de 60 a 100 veículos – no Alphaville, a capacidade é de 101 carros, com distanciamento de 1,50m entre eles. O projeto também prevê espaços em Brumadinho, Betim, Contagem e Nova Lima. “É algo fácil de ver e de o cliente usufruir, mas o bastidor é criterioso. Quando se trata de fazer o cinema drive-in, ele requer muita qualificação técnica para poder realmente levar o que é mais legal para o público: a experiência”, assinala Mol.

 

 Ele destaca que o drive-in jamais  suprirá o cinema. A começar pela programação, que não receberá lançamentos devido aos altos custos. “O cinema tem uma estrutura diferente, como maior conforto e sistema de áudio sofisticado. É uma tecnologia muito superior. A nossa ideia para o drive-in é o vintage, o retrô, levando a pessoa a uma experiência que só os avôs dele vivenciaram”, registra Mol, que compara o projeto ao circo - "o espetáculo principal é o encantamento, envolvendo o espectador do início ao fim”.

 

Outro ponto é o preço do ingresso (entre R$ 60 e R$ 100), considerado alto pelo público. "Li comentários de que é mais caro do que um pedir uma pizza para se comer em casa ou duas mensalidades da Netflix. Obviamente é, pois tudo que se faz em casa é mais barato. O foco deve ser a experiência - de chegar de carro estacionar e oferecer uma atividade externa. Se a gente não criar este envolvimento com o público, o cine drive-in não substituirá o cinema", analisa o proprietário do Autocine.

 

Uma das maiores curiosidades do drive-in, além de assistir ao filme de dentro do carro, é a tecnologia usada para transmitir o áudio, que requer autorização da Anatel para utilização de frequências da faixa FM dos rádios, com um alcance local. Em relação à tela e projetores, a Cineart está usando equipamentos que hoje estão ociosos nas salas. Segundo Thais, os maiores investimentos foram feitos na "parte legal para o projeto acontecer, com muitos documentos e alvarás".

 

O produtor destaca o cuidado redobrado com a higienização, que vão desde a bomboniére aos banheiros. “Até o nosso papel higiênico será individualizado, porque se você oferecer só um rolo no banheiro já estará fora do contexto dos protocolos”, salienta. Para ele, o mais importante é criar a sensação de segurança. "É a possibilidade de sair da garagem, ter a experiência dele sem abrir a janela do carro e voltar para casa. Ou seja, o carro é uma cápsula de segurança".

 

O Autocine pretende levar uma experiência que não se resumirá à exibição de filmes. Já tivemos o contato de interessados em apresentações musicais, como jazz e blues, e podemos receber também jogos de futebol, que devem liberados, mas sem torcida primeiramente", revela Mol. Em relação aos shows, eles poderão ser tanto transmitidos - via internet - exclusivamente no local, como uma live, quanto apresentações ao vivo, em cima de um palco.

 

Tanto a Cineart quanto o Autocine projetam a continuidade do drive-in pós-pandemia. "Acho que é um projeto que pode acontecer paralelamente às salas de cinema abertas. Uma coisa não impede a outra", registra Thais. No caso da Autocine, o projeto se transformará em cinema itinerante, levando a experiência para o interior o Brasil. "Não é só uma oportunidade de negócios surgida pela demanda. Nosso desejo é percorrer o Brasil inteiro", afirma Mol.