Além de Anne Frank (1929–1945), a menina que virou best-seller mundial após ter suas memórias do Holocausto publicadas, outras 700 crianças judias também desabafaram seus tormentos em diários. Alguns trechos desses textos foram traduzidos e estampam a montagem da exposição “Tão Somente Crianças: Infâncias Roubadas no Holocausto”, que será apresentada na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa (Praça da Liberdade, 21), desta terça-feira (7) até o dia 31 deste mês. A entrada é gratuita.

A mostra ainda terá objetos pessoais, vídeos com depoimentos históricos – mas também sobre esperança dos jovens sobreviventes –, além de fotos raras do doloroso período ocorrido em meados dos anos 1940, durante a 2ª Guerra Mundial. A exposição itinerante nasceu no Museu do Holocausto de Curitiba, único no Brasil sobre o tema.

Coordenador da instituição, o belo-horizontino Carlos Reiss explica que o nome da exposição saiu de uma dessas páginas escritas por uma das vítimas. Era a adolescente (de 14 anos) Pner Jiri Zappner, de um gueto da Tchecoslováquia, e que foi assassinada em um campo de concentração.

“Devem entender que ainda somos tão somente crianças, como crianças de qualquer outro lugar. Podemos ser mais maduros por causa do gueto mas, igualmente, somos crianças”, narra Pner.

O coordenador acrescenta que é no Museu do Holocausto de Jerusalém que estão catalogadas as centenas de diários dos pequenos judeus. “Muitos deles estão publicados e traduzidos”, lembra. Mas Anne Frank, ressalta, foi quem virou um símbolo de todo este processo.

Reiss diz que a exposição tem um “viés universal”. Desta forma, as histórias farão sentido na cabeça dos jovens de hoje. “Queremos passar a noção de respeito à diversidade através dessas histórias e ensinar valores”, enfatiza.

Pontualmente, a exposição mostra também a história de seis crianças sobreviventes do Holocausto e que migraram para o Brasil. Três estão vivas.

O coordenador informa que, no período, pelo menos 1,5 milhão de crianças judias foram mortas. Outras 500 mil – de origem cigana, vindas de famílias da religião Testemunhas de Jeová ou negras, entre outros – também tiveram destino trágico.

Vida que segue

Mesmo com tamanha dor, Reiss avalia que é possível o perdão, postura que diz perceber na fala de muitos sobreviventes. “O primeiro ponto é que muitas delas (as pessoas sobreviventes) dizem que foram ‘liberadas’ e não ‘libertadas’. Mas o perdão para muitas delas acontece naturalmente, através da reconstrução da vida, construindo uma nova geração com filhos e netos”, exemplifica.

A exposição, garante ele, agrega mais neste comportamento de superação, sendo didática pela própria essência. “É um tema forte, mas é preciso abordá-lo de uma forma educativa. Não há fotos chocantes. É aprender com a história”, sugere.