Elias Santos tinha outro sobrenome: Sunshine. Fruto de um trabalho final de curso, ele era um apresentador irreverente, inspirado em ícones dos programas de auditório da TV, como Bolinha e Chacrinha. Vinte anos depois, a experiência, por incrível que pareça, de alguma forma o levou até a presidência da Empresa Mineira de Comunicação (EMC), responsável pela administração da rádio Inconfidência e da Rede Minas, ligadas ao governo estadual.
 
Aliada ao conhecimento que adquiriu sobre o papel da rádios e TVs públicas, em passagens pela Rádio UFMG Educativa e pela TV Horizonte, a palavra que Santos usa com frequência é criatividade. Com poucos recursos e limitado pelas demandas políticas, ele vem transformando a maneira de pensar comunicação em Minas Gerais, buscando uma maior sinergia entre rádio e televisão.
 
“O ‘Elias Sunshine’ ficou ligado a um espaço alternativo, com um viés diferente do padrão ‘Global’. Isso me marcou muito, especialmente a pensar o rádio como um formato mais transmídia, não mais como o rádio separado da TV”, registra Santos, que era diretor artístico da Inconfidência, e ajudava a dar uma cara mais jovem e viva à programação da emissora. Há três meses assumiu a presidência da EMC, após o falecimento de Flávio Henrique.
 
 
Antes do Elias Santos, atual presidente da AMC, havia o Elias Sunshine, apresentador irreverente de uma espécie de programa de auditório, realizado em faculdades e outros espaços e, mais tarde, encampado pela própria Rede Minas. O que há ainda deste personagem em você?
Muito bacana lembrar essa época, tem muita coisa, sim. O programa surgiu de um trabalho final de curso, em 1996, na UFMG, como uma homenagem aos antigos programas de auditório de rádio nos anos 40 e 50. Passamos a abrir espaço para várias bandas, ao perceber que o programa de auditório ainda representava uma demanda dos artistas. Na época, não tinha divulgação na internet como tem hoje. Assim, os artistas clamavam por espaço. Nos anos 2000, ele virou programa de verdade, exibido na Rede Minas. Depois o Kiko Ferreira, diretor artístico da TV Horizonte, me levou para lá, para fazer um programa de debate com artistas. Tudo isso me marcou muito, especialmente a pensar o rádio como um formato mais transmídia, não mais como o rádio separado da TV. Lá no século XX, o rádio veiculava áudio. Agora, eu “brigo”, provocando as pessoas a pensarem em imagem o tempo inteiro. Na Rádio Inconfidência, fizemos isso, passando para as redes sociais. Não tínhamos dinheiro para comprar câmeras, mas usamos a criatividade, usando as câmeras de segurança do estúdio. Passamos a pensar o rádio e a TV como um dispositivo multimídia. A distância para a produção em broadcasting não existe mais. A TV pública tem que ousar, experimentar, pois não precisa ser o primeiro lugar em audiência.
 
Com três meses à frente da Empresa Mineira de Comunicação (EMC), após a morte de Flávio Henrique, você já conseguiu estabelecer uma cara própria?
Tudo aconteceu muito rápido. Mas não foi uma surpresa porque eu já estava na direção artística da rádio Inconfidência desde 2015. Como eu já estava participando desta implementação, não teve uma modificação radical, e o que procurei foi dar continuidade ao projeto. A rádio continua mantendo a linha que estabelecemos, em torno de três eixos básicos: cidadania, cultura e educação. O que está sendo feito neste momento, ao lado da diretora artística Brisa Marques, é uma revisão da programação musical, dentro da ideia de abrir mais espaço à produção mineira, principalmente para a turma mais nova. Com relação à TV, estou entrando aos poucos, pois a estrutura é muito grande, mas também não fugirá à ideia da rádio, de torná-la mais viva. Estamos fazendo o “Brasil das Gerais” ao vivo, cinco vezes por semana, e produzindo o jornal da noite com um foco mais nacional para, aos poucos, expandir a transmissão dele a outras emissoras. O “Voz Ativa” (programa de entrevistas) vem mantendo a linha dele, um programa de ideias com abordagem de assuntos nacionais, com a participação, sempre que possível, de convidados de fora de Belo Horizonte. Estamos trabalhando também na montagem do estatuto da EMC, com a criação dos conselhos administrativo e curador. A TV já tem um (conselho curador), mas a rádio não. A gente sente falta disso, em ter alguém para dialogar com a presidência e com a direção artística, no sentido de tornar a programação mais republicana.
 
Por estarem localizadas no mesmo prédio agora, no bairro Barro Preto, a rádio e a TV poderão juntar forças na questão da programação?
Essa integração tem ocorrido de forma natural, tenho notado isso. O “Agenda” tem colocado pílulas na rádio. O “Voz Ativa” conta com uma equipe maior, envolvendo pessoal da TV e da rádio, para o programa ir ao ar na segunda, na Rede Minas, e, nos dias seguintes ser veiculado na Inconfidência FM e AM. Os entrevistados que participam do programa do Tutti Maravilha acabam passando pelo “Agenda”.
 
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Como esse momento de aperto financeiro do estado tem se refletido na Rede Minas e na Rádio Inconfidência? Houve diminuição de recursos?
Apesar de vivermos essa realidade dentro do Estado, o orçamento da TV e da rádio foi preservado. Neste sentido, estamos muito prestigiados pelo governo, sem precisar cortar recursos, programas ou pessoal. Uma coisa importante que aconteceu no final do ano passado, por meio de um decreto-lei, foi a diminuição da carga horária dos funcionários, de oito para seis horas. É uma forma de otimizar e, mesmo com essa diminuição, os funcionários estão produzindo mais, para compensarem e serem solidários. Claro que, mesmo sem corte de recursos, temos uma dificuldade de criar projetos maiores. O que fazer? Trabalhar com o pé no chão, com o que é possível fazer. Internamente, as pessoas estão fazendo propostas de programa, há este movimento, sem prejuízo do horário de trabalho. Outro desejo nosso é criar um concurso para a EMC. O Estado agora não tem condição de fazer, mas vislumbramos essa possibilidade de um concurso para profissionais multimídia.
 
Você não tem, diferentemente do Flávio Henrique, um perfil político. Com tem sido administrar as ingerências do governo?
É uma pergunta muito boa. Sim, tenho um perfil mais técnico. O Flávio tinha essa coisa política. Quando me chamaram, sabia que assumiria riscos. Mas tenho achado interessante que, neste momento, com o governo em final de mandato, sem sabermos o que vai acontecer (mesmo havendo reeleição, pode acontecer uma mudança de composição política), há um respeito que a gente conseguiu com o tempo, o que nos blinda nestas demandas. Claro que elas existem e o que tenho que fazer é saber como absorvê-las na programação sem ferir a linha editorial da rádio e da TV. Por isso é importante ter uma programação diversificada. No mês que vem, entra em vigor a lei eleitoral e os funcionários, que trabalham há muito tempo na casa, conhecem a legislação, o que facilita muito. Falei da questão dos concursos, mas é fundamental manter uma quantidade de funcionários, que a gente sabe que irão ficar independentemente de quem esteja à frente da gestão. 
 
A Rádio Inconfidência, antes atrelada a um público mais velho, conseguiu se reinventar, mas a Rede Minas ainda parece estar tateando em busca de uma identidade. Qual a razão desta demora?
Nestes quatro anos de governo, a Rede Minas passou por um primeiro momento de discussão sobre o que é a TV pública, com seminários e discussões internas e externas. Isso demanda um tempo. Num segundo momento, focamos na transferência da sede. A rádio também fez isso, mas a estrutura de uma TV é muito grande, pesada, com a necessidade de compra de equipamento e realização de licitação. Outro momento foi a demanda dos funcionários, com a redução da carga horário e o pedido de melhoria salarial. Reconhecemos que o salário está muito abaixo do valor de mercado. Por fim, para mexer na programação, é preciso passar por um processo de se consolidar conceitualmente, em relação à expectativa do público, de se criar algo que fará a diferença. A Rede Minas tem uma linguagem próxima ao documentário, de cobertura de eventos, que precisa de uma estrutura melhor para fazer.