Filme que marca a estreia do diretor italiano Paolo Virzi em Hollywood, “Ella & John”, em cartaz no Belas Artes, tem forte ligação com “A Primeira Coisa Bela” (2012), um dos primeiros longas-metragens do realizador, na maneira como filhos e pais se relacionam no momento em que estes chegam ao final da vida.
 
Mas esta relação conflituosa, que leva a uma inevitável inversão de papéis, assume plano secundário em “Ella & John”, quando um casal de velhinhos resolve pôr o pé na estrada, sem consultar os filhos, para visitar a antiga casa do escritor Ernest Hemingway. O detalhe é que um está com câncer e o outro sofre de Mal de Alzheimer.
 
A primeira sensação é de desobediência, como se rompessem com o ciclo natural ao retomarem as aspirações de juventude e o controle de suas vidas. Boa parte da primeira parte se dedica a tirar graça desse instante de “irresponsabilidade” ao colocar o casal, vivido por Donald Sutherland e Helen Mirren, em conflito com a sociedade.
 
Experiência
Algumas situações de “Ella & John” são esperadas, até mesmo na forma de extrair o humor delas, como nas cenas da abordagem policial na estrada e de uma tentativa de assalto, quando a dupla é posta à prova e prevalece a velha e boa experiência em resolver imprevistos.
 
Aos poucos, porém, Virzi vai estreitando o seu olhar em direção aos personagens e a relação de complementaridade que eles mantém: Ella (Mirren) vive porque precisa cuidar de John (Sutherland), lembrando-o constantemente do passado; ele se torna o símbolo de uma das poucas coisas que restou a Ella, a afirmação de que tudo valeu a pena.
 
Como em “A Primeira Coisa Bela”, o lado edulcorado cede espaço a questões mais duras de nossa existência. Nos dois trabalhos, emerge o desejo de congelar um determinado momento, mas o passado se torna ao mesmo tempo belo e cruel, tão próximo e distante.
 
Em “A Primeira Coisa Bela”, fica num professor antissocial o trauma de conviver com uma mãe de conduta que, na década de 70, era considerada “aberta” demais. No filme mais recente, as lembranças se perdem diante da iminência da morte, simbolizada pelo marido, que se “apaga” a cada performance poética que realiza.
A forma ambígua de encarar a velhice se amplia ao final, de um realismo que se contrapõe à doce aventura dos primeiros movimentos de “Ella & John”. O filme se sustenta ainda na boa atuação da dupla, que valeu uma indicação ao Globo de Ouro para a veterana atriz.