Christopher Plummer surge como um capitão Von Trapp (“A Noviça Rebelde”) já de bastante idade na refilmagem americana de “Elsa & Fred”, lançada agora em DVD. É mal-humorado, vive de forma rotineira e pouco se abre às novidades ao seu redor, obrigando o mundo a se adaptar a ele e nunca o contrário.

Shirley McLaine nos faz rememorar sua personagem em “Charity, Meu Amor”, mulher cheia de equívocos, mas de uma alegria contagiante. Ao lado de Plummer, ela reforça no filme a relação com um cinema que não buscava o realismo. E sim a emoção emanada por seus atores, responsáveis por nos conduzir a aquele universo de sonhos.
Essa “bagagem” da dupla de veteranos é fundamental para entender a proposta de “Elsa & Fred”, emprestando seus personagens do passado para a construção de uma narrativa que fala de encantamento, transformação pelo amor e segunda chance, elementos caros ao cinema hollywoodiano da metade do século 20.

Características estampadas no desejo de Elsa (McLaine) em se passar por Anita Ekberg e entrar na Fontana di Trevi, em Roma, para repetir uma cena de “La Dolce Vita”. Com o casal na faixa dos 80 anos, a história nos quer mostrar que não há limites para alimentar os sonhos, fazendo da vida mais doce, como diz o título do filme de Federico Fellini.

Talvez essa seja a grande distinção entre a refilmagem e o original espanhol, lançado em 2005. Por mais que Elsa e seu namorado Fred brinquem com as perdas (físicas e emocionais) da velhice, há um ar melancólico e “culposo” que percorre a narrativa do primeiro filme. Na adaptação, é o contrário: o arrependimento por não ter sido feito/encontrado antes.

Parece um detalhe pequeno, mas faz toda a diferença no envolvimento do espectador com os filmes.

Compreensão

Para uma plateia jovem, o espanhol nos faz pensar sobre o tratamento que damos aos idosos. O “Elsa & Fred” americano já nos leva – independentemente da idade – a se projetar naquela relação, perguntando se estamos sendo compreensivos com o outro.

Por essa ótica a escolha de Michael Radford para a direção parece acertada. Um dos seus trabalhos mais conhecidos se desenvolve justamente sobre a ideia de troca entre duas pessoas diferentes, que carregam uma paixão comum, em “O Carteiro e o Poeta” (1994), sobre a verídica relação de amizade entre um carteiro e o poeta chileno Pablo Neruda.

A versão americana poderia ter mudado partes do roteiro para encaixar melhor essas questões, mas preferiu ser fiel à ordem dos passos que culminam no amor de Elsa e Fred, só acrescentando alguns personagens coadjuvantes. Optou-se por se mudar o tom e apostar completamente na química de seus protagonistas octagenários.