OURO PRETO – Elizabete Martins já tinha filmado quase todas as cenas do documentário “My Name is Now, Elza Soares” quando percebeu que, até aquele momento, tinha em mãos um filme para circular em museus e galerias de arte – lindo, porém sem a voz das minorias que a cantora sempre representou.
 
“Disse para a Elza que a câmera estava ligada para ela falar o que nunca pôde. Foi aí que surgiu um belo improviso, em que damos voz a essa mulher negra e pobre que venceu num país tão machista. Ela é a legítima filha do Brasil”, assinala Elizabete, horas antes de exibir o filme na Praça Tiradentes, em Ouro Preto. 
 
Um dos destaques da 10ª Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP), encerrado na última segunda-feira, “My Name is Now” se beneficiou muito dessa resistência viva chamada Elza. Elizabete confidencia que o filme passou por muitas dificuldades para ser concluído e a intérprete não titubeava: “Olhem para mim, gente!”.
 
MUITAS PERDAS
 
Com 77 anos, Elza é uma carioca filha de operário e lavadeira que foi obrigada, pelos pais, a parar os estudos aos 12, para casar. Dois frutos dessa união morreram prematuramente, pouco tempo depois de nascerem. Após ficar viúva, não viu outra solução a não ser entregar a filha para uma família rica criar.
 
Mas sua voz rouca e vibrante acabou chamando a atenção das gravadoras. E sua garra e beleza, a do jogador Mané Garrincha, que se divorciou para viver ao lado dela. “Elza é essa força brasileira, mostrando que é possível dar a volta por cima e deixar uma mensagem de paz”, assinala Elizabete, estreante em longas-metragens.
 
OUTSIDER
 
A narrativa do filme segue esse perfil da cantora. “Ele é outsider, correndo por fora como Elza. Não tem perguntas e respostas e é todo em primeiro plano. Temos imagens de arquivo e também de elementos da Natureza. Não há um texto pronto, até porque as músicas já falam tudo”.
Um exemplo disso é quando Elza canta “A Carne”, transformado num grito de resistência do negro. Para Elizabete, o maior presente do filme é a junção entre essas músicas, a história de Elza e o imaginário de quem as ouviu. “Ela ajudou a fazer da música negra um ícone tão forte no Brasil”.
 
Garrincha também está presente, com o documentário ajudando a eternizar esse amor que abalou a sociedade da época – ela foi acusada de destruidora de lares. “Conheci as filhas dele, que exibiram um grande respeito à figura de Elza”, registra Elizabete, que precisou de autorização da família de Mané para usar as imagens, além de pagar um cachê.