A música grave, própria de um suspense, pode soar inadequada, especialmente nos primeiros minutos de “3 Corações”, quando o espectador tem em mente que está acompanhando uma história romântica entre duas pessoas que já experimentaram altos e baixos. Uma das principais estreias desta quinta-feira (30) nos cinemas, ao lado de “Cake – Uma Razão para Viver” e “Para o Que Der e Vier”, a produção francesa de Benóit Jacquot deixa de ser uma trama sobre recomeço para enveredar sobre a crueldade muitas vezes proporcionada pelo destino. Pois somente ele para postergar o que parece inevitável.

É bom explicar: depois de se apaixonarem, Marc (Benoît Poelvoorde) e Sylvie (Charlotte Gainsbourg) se desencontram. Marc acaba descobrindo um novo amor, Sophie (Chiara Mastroianni), justamente a irmã de Sylvie. Como nos filmes de Alfred Hitchcock, Jacquot faz da plateia uma espécie de voyeur, que detem as informações e só faz aguardar o desfecho. Após brincar, com requintes de sadismo, com essa sensação, o realizador cria outro filme quando Marc e Sylvie ficam frente a frente novamente. Jacquot acentua o caráter de tragédia grega, em torno da impossibilidade de os personagens terem controle sobre a situação, mas perde a mão ao fazer paralelos da traição familiar com a corrupção política, com a profissão de Marc (auditor que enxerga os mínimos detalhes nas contas alheias) e com o coração fraco dele.

“CAKE”

Já Jennifer Aniston deixa, ao menos momentaneamente, o posto de “namoradinha da América” e encarna o drama “Cake”, no papel de uma mulher deprimida, Claire, que tem que lidar com uma perda após um acidente – com direito a cicatrizes na face.


Em ‘3 corações’, a crueldade proporcionada pelo destino

“CAKE” – Jennifer Aniston é Claire Simmons, uma mulher obcecada pelo drama alheio (Divulgação)