É possível dizer que há uma construção teológica em “Homem Comum”, lançado recentemente em DVD, a partir do momento em que, nos dois tempos em que o documentário se passa, separados por quase 20 anos, o diretor Carlos Nader tenta responder a pergunta “Por que a vida nos parece estranha, como se fosse um sonho?”.

Nos anos 1990, o cineasta tinha o projeto de levar essa indagação a caminhoneiros encontrados aleatoriamente num posto de gasolina. Estava, como ele mesmo diz na narração, perturbado com um filme dinamarquês de 1955, de Carl Dreyer, que falava sobre fé e devoção.

Duplos
Um de seus personagens, justamente o que melhor desenvolveu a resposta, é a razão de Nader retomar o filme, agora trazendo uma outra ideia, de poder refazer a nossa existência, pelo o que o cinema representa de memória, realidade e sonho. Essas palavras são costuradas à narrativa de maneira sensível e peculiar.

É como se o diretor desdobrasse sua ideia primeira, criando duplos. O caminhoneiro do passado dialoga com o personagem de hoje, tendo como marcos a morte da esposa e o nascimento do neto, paralelos que também são criados entre o filme de Dreyer e um outro fictício, que reelabora as questões de “A Palavra” de forma menos violenta.

Nessa perspectiva, “Homem Comum” se organiza a partir de ideias como vida e morte, castigo e milagre, racionalidade e espiritualidade, reforçadas por associações constantes entre os quatro elementos narrativos, cada vez mais imbricados a uma quinta parte, como reflexos das questões do diretor, com o cinema se tornando um mito de divindade.