“Nós”, a mais recente montagem do grupo Galpão mostra que a companhia – que soma 34 anos de história – está com a faca mais amolada do que nunca. Dirigida por Marcio Abreu, com o auxílio de Eduardo Moreira na dramaturgia, o Galpão entrega ao público uma obra ousada, atual e necessária nesse tempo de fragmentação das relações humanas e incertezas experimentadas pela sociedade. Um espetáculo mais intuitivo que revela um lado menos conhecido/reconhecido do grupo.

No roteiro, criado a partir da improvisação dos atores, a peça começa num ato real de convivência: a preparação de uma última sopa pelas mãos dos atores Antonio Edson, Chico Pelúcio, Eduardo Moreira, Júlio Maciel, Lydia Del Picchia, Paulo André e Teuda Bara, nos quais o público se reconhece o tempo todo. 

Enquanto cortam legumes, de alguma forma tentam articular uma visão de mundo. Situações que ressoam na sociedade como intolerância, negação das diferenças e a dimensão política existentes em todas essas questões, que convivem juntas, dão base para os diálogos. Apesar de levantar temas colados no real, a peça não reproduz a realidade. Neste ponto está um de seus grandes acertos, com o grupo dando um “nó” na cabeça do espectador e o tirando do lugar comum ao abrir inúmeras janelas reflexivas.

Humor refinado
“Comendo a mesma comida, bebendo a mesma bebida e respirando o mesmo ar”, como entoa Teuda Bara, o público se torna parte do espetáculo e isso potencializa sua mensagem. Em um formato de arena, toda a ação se passa em um tablado e a peça se aproxima mais de uma obra do universo da performance do que, exclusivamente, teatral. 

A partir de recursos cênicos como a repetição aliada ao humor refinado, eles provam que é possível falar de temas atuais com toda sua complexidade sem soar enfadonho. Isso fica claro em uma cena protagonizada por Teuda e Eduardo, na qual fazem referência a diversos desastres ambientais e sociais de forma tão poética e entregue que deixa o público atônito. Teuda, por exemplo, faz um manifesto contra a inércia. 

A iluminação assinada por Nadja Naira enaltece a intensidade e o sentimento de cada ator. Outro ponto de destaque é a trilha e efeitos sonoros de Felipe Storino que fazem com que as cenas tenham ainda mais potência. Já o cenário é como um oitavo personagem. Criado por Marcelo Alvarenga, ele interfere nas ações e as tornam mais próximas do público. Em resumo, nenhum recurso é utilizado fora do lugar. 

O espetáculo termina com uma possibilidade de início. Os atores se perguntam: como recomeçar ou começar algo novo? Isso eles não respondem, mas acendem a luz da esperança ao colocar um espelho diante do espectador. O caminho do recomeço, talvez, esteja em nós.

Serviço:

“Nós” fica no Galpão Cine Horto (rua Pitangui, 3.613) até o dia 15, de quinta a sábado, às 21h, e aos domingos, às 19h. Entrada: R$40 e R$ 20 (meia). As sessões dos dias 8 e 12 terão audiodescrição com a inserção de áudio nos intervalos das falas dos atores

 

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