Tokushu satsuei. Além, é claro, dos praticantes da língua japonesa, os fãs de seriados de ficção científica produzidos no outro lado do mundo sabem muito bem o seu significado. Em bom português, a expressão quer dizer “filme de efeitos especiais”, origem de diversos programas televisivos que marcaram os anos 1970, 80 e 90 e renderam derivados como “Power Rangers”.
 
Feito nos Estados Unidos, mas muito fiel à tradição dos tokushu satsuei, a franquia criada em 1995 está de volta aos cinemas, com um terceiro filme, já em cartaz. “Os produtores repaginaram, mas há várias citações à parte clássica da série. Quem é fã vai adorar”, observa Raphael Maiffre, administrador do site “Mega Power Brasil”, o maior da América Latina sobre “Power Rangers”.
 
Como todo fã mais velho do derivado americano, Raphael começou com os originais japoneses, mais especificamente “Winspector”, exibido na extinta Rede Manchete. 
 
“Para meu azar, a série passava de manhã na Globo. Como eu tinha aula nesse período, só consegui ver depois, em fitas gravadas. Mas foi amor à primeira vista”, registra Raphael, formado em Administração de Empresas.
 
A troca é justificada, principalmente, pela proximidade cultural. “Além do formato, que me cativou, completamente diferente dos outros seriados da época, os atores são ocidentais e o cotidiano é mais parecido com o nosso. Os tokushu satsuei têm mais referências culturais às coisas de lá”, explica. Outros, ao contrário, gostam dos japoneses justamente por essas especificidades.
 
Excentricidade
É o caso de Paulo Henrique Góes Tirre, colecionador de seriados, radialista, tradutor de quadrinhos e gerador de conteúdo do site tujaviu.com, especializado em HQs europeias. “Esses enlatados eram diferentes, por terem enredo se passando no Oriente. O Japão era um cenário bem excêntrico e exuberante para uma criança acostumada a programas de TV e desenhos americanos”, observa.
 
Tirre ressalta que o que mais lhe chamava a atenção nos tukusatsus (abreviação de tokushu satsuei), em especial “Ultraman” e “Ultraseven”, era o clima futurista de suas patrulhas científicas, que mudavam a cada seriado. “Suas naves, capacetes arrojados, carros com design avançado e seres Ultra camuflados entre esses grupos me fascinavam”, salienta o colecionador. 
 
 
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Paulo Henrique Tirre ressalta que o que mais lhe chamava a atenção nos tukusatsus era o clima futurista de suas patrulhas científicas

 
Sem falar, continua Tirre, naquela “sensação de grandiosidade, com aqueles monstrengos enormes destruindo Tóquio, andando entre prédios, e sendo contidos por Ultras também era um fator de atração”, que, muitas vezes, também é vista com humor por quem assistia ao programa, devido ao design pobre de recursos dos monstros e dos próprios heróis.
 
Ele concorda que vários seriados, apesar da ingenuidade dos enredos, própria do universo infantil, provocavam outras leituras, afinadas com as questões japonesas daquele tempo. Uma delas era a poluição, de onde surgiam monstros em “Spectreman”, e a invasão alienígena, que pode ser lida como a preocupação dos nipônicos com a preservação de sua cultura, após a rendição aos americanos, na Segunda Guerra.
 
Lição de moral
“Eles apresentavam nuances religiosas e questões místicas embutidas. Nesse ponto, esses programas sempre foram mais adultos do que os de seus concorrentes americanos, superficiais e disseminando uma violência gratuita, como ocorre até hoje”, analisa Tirre, para quem mesmo as produções japonesas mais infantis nunca eram totalmente ingênuas.
 
Para Raphael, “Power Rangers” também não foge à essa preocupação, apresentando mensagens para as crianças, com histórias carregadas de lições de moral. E como nos japoneses, não faltam também maquetes, pessoas fantasiadas e pirotecnia. “Pode parecer caricato, mas era divertido. Hoje os produtores usam mais computação gráfica”, pondera o editor do site.

 

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