Eles quase não têm melanina – proteína que dá cor à pele – e, por conta disso, foram os personagens reais escolhidos pelo fotógrafo mineiro Gustavo Lacerda para o ensaio de fotos autorais “Albinos”. O trabalho é resultado de quatro anos de pesquisas estéticas, contatos, paciência e respeito que ainda perduram. Neste mês, o artista recebe o Prêmio Fundação Conrado Wessel de Arte, no qual faturou o primeiro lugar após concorrer com 455 ensaios fotográficos de todo o país.


Antes de a série ser concluída, recortes dela têm sido mostrados em alguns eventos pelo Brasil e pelo mundo. O resultado emociona quem não consegue despregar os olhos da beleza que há no que é “diferente”. Neste ano, a primeira parte do projeto deve ser finalizada com uma sequência de imagens que o fotógrafo fará no Maranhão. O livro com a totalidade das fotos também entrará em produção e deve ser publicado no final de 2013.


Radicado em São Paulo há 12 anos, Gustavo Lacerda falou ao Hoje em Dia sobre sua obra. O fotógrafo, que começou sua carreira como repórter fotográfico nesse jornal, radicou-se na capital paulista para trabalhar com publicidade. Já a aproximação com os albinos se deu de forma gradual, a partir de 2009. “Comecei a ficar mais atento a estas pessoas, que passam sempre depressa pelas ruas, meio tímidas”. Os primeiros contatos que fez foram por meio de redes sociais.


“Acho bonito o descolorido. São pessoas que têm uma postura delicada. Além da pele, elas também chamam atenção pelo silêncio”, avalia. Mas não espere ver albinos famosos no trabalho de Lacerda, caso do músico e multiinstrumentista alagoano Hermeto Pascoal. “O trabalho é (norteado) pelo lado dos anônimos”, indica. Mesmo assim, os modelos tiveram tratamento de artista, com direito a figurino especial e a cabeleireira. Porém, a participação deles foi 100% voluntária.


Na primeira sessão, o fotógrafo ainda pesquisava o caminho estético que queria percorrer. A escolha pelos tons pastéis do cenário emulam papel de parede. Já a opção pelos figurinos com modelos “retrô” veio com o tempo. Para encontrar as roupas, Lacerda perambulou por brechós. “Queria passar uma imagem tipo de foto de família”.


Além disso, foi necessário que o fotógrafo criasse uma luz especial, “mais difusa, suave”, para que a alvura natural da pele fosse mantida e o brilho não ofuscasse a visão dos fotografados. “A maioria dos albinos tem problemas de visão, por isso, a luz muito forte incomoda”. Assim, Lacerda criou um sistema com flashes que rebatiam em uma superfície. A luz já amenizada é que chegava até eles.


Não deve ser fácil estar fora dos chamados “padrões convencionais”. Obesos, magros, gays e demais minorias que o digam – mesmo que a partir destas minorias é que a maioria seja feita. “O objetivo foi captar o orgulho destes albinos por estarem ali. Mas vi muito o sentimento de timidez. Quando eu dava o figurino para vestirem, mexia com a autoestima deles”, entende Lacerda.


O fotógrafo diz que não se absteve de captar estas reações e que elas são perfeitamente compreensíveis. “Qualquer pessoa que está fora do que se convenciona como padrão é zoada. Certamente, eles sofreram muito na infância por serem albinos. As crianças que fotografei são um pouco retraídas. Procurei não dirigir muito as imagens. Eu quis captar isso. Percebi que a mão é um ponto de tensão comum em todos, às vezes, o estrabismo”.


Com a ideia correndo mundo, assim como os belos resultados delas, Lacerda diz que muitos albinos entraram em contato com ele, por meio do seu site, querendo ser fotografados também. “Eles ficam emocionados quando veem o trabalho. Recebo e-mails do mundo inteiro. Estou à disposição”.


Mesmo bancando sua ideia, Lacerda diz que o trabalho só agora começa gerar alguns recursos, mas apenas por meio dos prêmios que recebe. Em 2010, o fotógrafo recebeu o Prêmio Brasil Fotografia (antigo “Prêmio Porto Seguro Fotografia”) e, desde então, está conseguindo viajar para realizar o projeto juntamente com sua equipe. “Encontramos pessoas muito humildes e muito esclarecidas que aderiram”.


Uma das mais emocionantes e raras histórias encontradas pelo fotógrafo é das gêmeas univitelinas albinas Helena e Mariana, 2 anos. “Ter um filho albino é uma surpresa total. Gêmeas albinas, então, é mais surpresa ainda. Logo quando nasceram, a mãe delas numa tentativa de entender o que as filhas tinham, chegou até meu trabalho”.


As meninas foram convidadas para fazer parte do ensaio, mas a mãe delas não se sentia muito confortável em expor as crianças. Um ano e meio se passou, sempre pontuado por conversas e entendimentos, e, só então, a mãe resolveu aderir à proposta. Hoje, as imagens delicadíssimas das irmãs também arrancam suspiros emocionados onde chegam. “Combinamos que fotografaria as irmãs ao longo da vida. Temos a possibilidade de vislumbrar a beleza em qualquer ser humano”, ensina.