A dificuldade em preservar e conservar construções históricas muitas vezes passa pela demanda não suprida de mão de obra especializada, apta a realizar um trabalho que exige qualificação em técnicas de construção do período colonial. Mas o cenário tem tudo para mudar. 

No centro histórico de Mariana, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1945, há duas construções centenárias em obras. Graças ao projeto de restauração da igreja São Francisco de Assis e da Casa do Conde de Arassuma, financiado quase na totalidade pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Social), foi criada a Escola de Ofícios Tradicionais do município, que oferece cursos de Alvenaria, Carpintaria, Ferragem, Cantaria e Pinturas Especiais. São técnicas que perderam adeptos diante de inovações da construção civil, mas que permanecem essenciais na conservação do patrimônio. “São ofícios do restauro que a nova geração quase não conhece. Há poucos mestres nessa área”, explica a diretora executiva da escola, Edinéia Araújo. 

“Existe uma lacuna de formar profissionais com esse conhecimento específico, algo comum na Europa, onde existe em qualquer cidade pequena, mas aqui não valorizamos nosso patrimônio, de forma geral, e esses ofícios não estão sendo repassados”, complementa a diretora. 

Além da aula prática em ateliês com mestres, o curso ensina História da Arte, Português e Empreendedorismo para que os futuros restauradores possam gerir a própria oficina.

Em andamento
Edinéia Araújo ressalta que atualmente há mais uma dúzia de monumentos históricos em obras na cidade e que a formação pode representar entrada imediata no mercado de trabalho. Expectativa confirmada pela chefe do Escritório Técnico do Iphan em Mariana, Letícia Matos. “Toda qualificação é bem-vinda e esta de fato representa um impacto soci-oeconômico para a cidade. Esperamos que estes profissionais já sejam incorporados, diante da perspectiva de outras construções que necessitam de reparos na cidade, como a Catedral da Sé, a Igreja do Rosário”.

Letícia Matos aponta ainda que não se trata apenas do aspecto de bens culturais: passa pela construção civil e uma forma geral. Muitos distritos tiveram casas construídas por essas técnicas de mão de obra escassa hoje, inclusive Bento Rodrigues, destruído com o rompimento da Barragem de Fundão. “Esse curso também é importante para desmistificar a ideia de que técnicas tradicionais são obsoletas”. 

Reprodução de manto eclesiástico exige bordado fio a fio

O bordado é um instrumento de preservação da memória no projeto de confecção de dois medalhões presentes em uma capa eclesiástica do século 13. Já que parte do manto de Saint Louis D’Anjou já não existe mais, a basílica de Saint Marie Madeleineuma, localizada em um pequeno povoado no sudeste da França, decidiu encomendar a diversos países a incumbência de confeccionar reproduções dos 30 medalhões originais da vestimenta que protegeu bispos e papas durante cerimônias externas, tais como peregrinações e procissões.

Coube a dez integrantes do Grupo de Estudo do Memorial do Bordado Maria Arte e Ofício a responsabilidade de produzir duas peças de 38 cm de diâmetro cada, um trabalho que exigiu muita pesquisa e paciência para não descaracterizar um trabalho desenvolvido com a técnica Opus Anglicanum, conhecida como bordado medieval. 

“Seguimos todas as características da forma mais fiel possível, no uso da linha, do tecido, do suporte. É uma técnica de bordado de difícil execução, seja por falta de mão de obra, pela preciosidade dos materiais. São linhos de seda e o fundo sempre tem fios de ouro, então não pertence à nossa história, que é de pouco mais de 500 anos”, explica a coordenadora do grupo, Maria do Carmo Guimarães Pereira, acrescentando que o custo elevado do material utilizado se adequava à opulência da Igreja Católica. 

“É uma técnica em que o material rende pouco. É um fio de linho atrás do outro e nenhum pedaço de pano pode aparecer, demandando muito tempo e atenção”.

Hístoria Milenar
Maria Madalena dá nome à basílica da região francesa, para onde a personagem bíblica teria ido após a crucificação de Cristo e a perseguição aos judeus que dispersou os apóstolos pelo mundo. O manto original foi encomendado por um monarca francês e leva o nome do neto dele, Saint Louis D’Anjou, que abdicou do trono e converteu-se em padre franciscano. 

“Ele morreu aos 23 anos, como bispo de Toulouse, e foi canonizado apenas 20 anos depois, o que mostra a importância desse personagem”, conta Maria do Carmo, lamentando que a peça tenha sido bastante danificada pela ação do tempo e das traças. 

O manto original teve o tamanho reduzido para se adequar a bispos e papas mais baixos. “Consideramos o bordado uma arte maior como sempre foi”, diz Maria do Carmo. 

Segundo ela, a peça original demorou de 5 a 8 anos para ser concluída, demandando muitos recursos. Ela espera agora poder construir um memorial sobre o bordado e registrar as técnicas para preservar essa história.