Uma das mais importantes escritoras do país, dona de uma narrativa marcante e ousada, com textos constantemente citados nas redes sociais, Clarice Lispector completaria hoje 99 anos. A proximidade do centenário é acompanhada da reedição da obra completa pela Rocco, que apresentará novos projetos gráficos, como telas pintadas pela autora estampando as capas.

Íntimo da literatura de Clarice há 20 anos, o professor Luiz Lopes, do curso de Letras do Cefet, elenca alguns motivos para conhecer o universo da escritora de origem ucraniana falecida em 1977, começando “pelas imagens inquietantes de sua ficção, que dizem respeito a uma linguagem complexa e que representa um modo complexo de entender o mundo e a experiência da vida humana, animal e vegetal”.

Lopes conheceu a literatura de Clarice no fim dos anos 1990. Na época, fazia o ensino médio numa escola pública no interior de Minas. “Eu me sentia bastante estranho e me faltava aquilo que acalma as pessoas – o sentimento de pertencer a um grupo ou a alguma coisa. Por não pertencer ou achar que não pertencia, deixava de assistir várias aulas e me refugiava na biblioteca dessa escola”, lembra.

Numa dessas manhãs de fuga, ele se deparou com o primeiro romance de Clarice, “Perto do Coração Selvagem”, e “Laços de família”, reunião de contos. “Li os textos com assombro, espanto e muito prazer, sentindo tudo, mas sem entender muito. Anos depois, escuto a própria autora dizendo que a literatura dela não é para ser entendida, mas sentida. Segundo ela, seus textos ou tocam ou não tocam o leitor”.

Lopes foi tocado pelas palavras de Clarice, admirador da ruptura que seus textos promovem com os binarismos típicos, como masculino-feminino, humanidade-animalidade, belo-feio, dentro-fora e o racional-sensível de nossa época. “Ela desafia os o excesso de racionalismo. Em Clarice há, antes, uma razão sensível. Ela própria dizia: ‘Não se preocupe em entender, viver ultrapassa todo entendimento’”.

Para o professor, Clarice nos convida a, diante das adversidades e da dor da existência, afirmarmos o selvagem, o problemático e, sobretudo, descobrir modos de afirmação. “Isso não significa resignação, mas transformação profunda em busca de uma sociedade que abrigue todo modo de vida e de existência, todos os corpos e todas as formas de amor”, analisa.

A obra de Clarice deve ser avaliada, segundo ele, pela reconexão que estabelece com a importância do assombro, fazendo uma ponte entre literatura e filosofia. “A literatura dela sublinha a importância das perguntas contra as apressadas respostas dogmáticas que imperam no presente reativo”, pondera o professor, que evidencia ainda a criação de literatura de herança antropofágica.