Momentos de sofrimento físico, espiritual e mental cercado por muita tecnologia. Este é o retrato do mundo pós-pandemia e também o formato que o grupo Teatro Público encontrou para apresentar o espetáculo “Errantes”, que tematiza a Paixão de Cristo de uma forma muito contemporânea, do conteúdo à linguagem.

Acostumados a usarem a rua como grande palco de seus trabalhos, os integrantes transformarão um dos eventos máximos da Bíblia – a crucificação de Jesus Cristo – numa espécie de “Big Brother”, valendo-se de múltiplas experiências de interação tecnológica, como podcast, YouTube, Zoom, Instagram e projeção na parede.

Os interessados em ver o espetáculo podem acessar o site do grupo, com os dias e horários das apresentações. Para interagir com os atores em dois episódios, a inscrição, gratuita, deve ser feita pelo Sympla até amanhã. São 18 vagas por dia

Rafaela Kênia, diretora e atriz de “Errantes”, explica que cada um dos passos ganhará, a partir de amanhã, um formato diferente, levando o público a “lugares” diversos dentro do que se convencionou chamar de rede social. A mudança, gerada pela pandemia, foi abraçada como um desafio para o processo criativo do grupo.

"Em princípio, faríamos em bairros cujos nomes referenciam esses evangelhos, como Sagrada Família, Canaã, Nazaré e Sion. Chegamos a fazer algumas ações na rua no início do ano, como a construção de cruzes na região central. Como sempre trabalhamos em relação direta com as pessoas, resolvemos levar tudo isso para as plataformas digitais”, registra.

Rafaela brinca que o grupo viveu o seu calvário particular como artista. “Foi um grande desafio. Tivemos que nos reinventar e aproveitamos para mostrar as nossas próprias dificuldades durante o processo”, observa. Esta abordagem está patente em “A Queda”, que também fala “da queda dos artistas neste momento de não-teatro, de não-encontro”.

Piauí
No lugar de 14 estações, serão nove episódios, entre eles a ceia e o julgamento de Jesus. O interesse pela Paixão de Cristo nasceu, na verdade, três anos antes, quando o Teatro Público esteve em Floriano, no Piauí, para participar de um festival. “Foi quando conhecemos a cidade cenográfica da Paixão de Cristo, que recebe dez mil pessoas”, recorda.

"A Paixão de Cristo é uma tradição popular no Brasil, acontecendo em várias cidades, e as manifestações populares são a nossa inspiração. Então resolvemos fazer aproximação desta história, que tem temas antigos, mas que ainda são contemporâneos, como justiça, amor, ódio e desigualdade social”, destaca a diretora.

O diálogo com o hoje se manifesta na abordagem de temas como racismo e universo LGBTQI+. “Já até nos fizeram a pergunta se somos um grupo religioso. Somos um grupo de artistas que pegou uma história quase universal para refrescá-la, trazendo estes temas que são atemporais. São assuntos que não têm a ver só com religião, mas sim com política, com a nossa forma de ver o mundo”, analisa.