Se não foi com Petra Costa (a diretora de “Democracia em Vertigem”, indicado ao Oscar de melhor documentário), um “cheirinho” de vitória pôde ser compartilhado com os mineiros depois que um estúdio de dublagem de Belo Horizonte foi escolhido para dar a versão brasileira ao grande ganhador da cerimônia de 2020, o sul-coreano “Parasita”. O filme acaba de chegar aos sites de streaming e TVs por assinatura.
 
Para a Scriptus, empresa que está há três anos está emprestando vozes a personagens de filmes com elenco 100% mineiro, vencer dubladoras do eixo Rio-São Paulo teve um gosto parecido ao que o diretor Bong joon-Ho e equipe experimentaram ao subirem ao palco do Dolby Theatre, em fevereiro. “É a primeira vez que Minas recebe um filme desta magnitude”, comemora a diretora-executiva Rafaela Lôbo. 
 
A Scriptus foi escolhida pelos produtores do filme após um teste aberto que, segundo Rafaela, levou em conta interpretação, qualidade de som e o “encaixe” das vozes. O material usado foi o mesmo para todas as concorrentes: o trailer. A razão da preferência pela Scriptus não foi dita diretamente, mas a dubladora e diretora Ana Brandão não tem dúvidas de que a especificidade da voz dos mineiros pesou favoravelmente.
 
“A forma de mineiros, paulistas e cariocas falarem é bem diferente. Normalmente a gente acaba engolindo os gerúndios, mas um profissional daqui consegue fazer uma voz sem qualquer sotaque, bem limpa. Tanto que as pessoas indagam, após verem um trabalho nosso, onde foi feita”, observa Ana, que faz pequena participação na dublagem de “Parasita” como apresentadora de telejornal.
 
Animada com a repercussão, a dubladora vislumbra um futuro promissor para o setor no Estado. “Minas existe, os profissionais existem. Nós temos voz. Depois desse filme, outros (trabalhos) virão. Isso vai abrir o mercado, com os clientes passando a confiar nos mineiros”, registra. Com ela, estão atores como Alessandra Carneiro, Marcelo do Vale, Paula Amorim, Rodrigo Righi, Dora Sá e Rodrigo Mangah.
 
“Independentemente de recebermos metade do salário de um profissional de São Paulo ou Rio, os mineiros fazem dublagem porque amam essa atividade. “A gente se diverte bastante. É como uma família”. Os baixos custos se tornam ponto a favor dos estúdios mineiros, mas estão longe de representar qualidade inferior. Prova disso foi a seleção para “Parasita”, em que os preços não foram levados em conta.
 
Rafaela Lôbo explica a diferença de valores como reflexo da história da dublagem no Brasil. Nos anos 80, os artistas recebiam por cada “anel” (trecho do filme), em que todos tinham que gravar juntos. “Apesar de esta forma de pagamento permanecer em Rio e São Paulo, a tecnologia hoje é diferente, permitindo que cada um grave separadamente. Já nascemos dentro desta tecnologia. Minas não é o inimigo. Mas sim Argentina, México e EUA, onde fazem dublagem em português por valores irrisórios”.