Ao reportar a primeira impressão sobre o namorado rico, a jovem virginal e prestes a se formar na faculdade Anastasia recorre ao termo “limpo”. A expressão também pode ser usada para definir o sexo mostrado em “Cinquenta Tons de Cinza”, principal estreia desta quinta-feira(12) nos cinemas.

E, numa leitura mais ampla, “limpa” também é a maneira como as relações de poder se dão nessa adaptação do livro que virou best seller. Com um romance que soa muitas vezes inverossímil e “soft” diante de outros longas que abordaram perversões sexuais, não há muito para onde se olhar a não ser para esse jogo de classes.

Embora sutil, pois nunca se fala em “rico” ou “pobre”, a narrativa desenvolve uma premissa curiosa: estaria o empregador (chamado de “Dominador”) isento de culpa quando deixa claro as regras do jogo capitalista para o empregado (o “Submisso”)? Pelo filme, é possível dizer que sim.

O executivo Christian Grey é honesto com Ana: desde a primeira cena, todos sabemos que ele não é bom. Sem enganar a moça, ele mostra o “quarto de brinquedos” que tem, recheado de objetos de perversão, que pode muito bem ser a representação das regras a que nos submetemos ao entrar no mercado.

Temos a certeza de quem sairá ganhando nessa “luta” (outro termo usado por ela), mas o discurso, especialmente quando é franco como o de Grey, nos leva à ilusão de que essa relação pode melhorar, bastando ter a “mente livre” e nos entregar. Com isso, contentamo-nos com pequenas melhoras.

Mas mesmo esse olhar sobre as relações de poder se torna frágil porque o filme não só assume a ideia de que Grey é apenas reflexo de uma sociedade doente como também aposta na ingenuidade do espectador, em cenas constrangedoras como o instante em que Ana põe na boca, de maneira erotizada, um lápis com o nome Grey.

Assista o trailer: