Representante do Brasil na busca por uma indicação ao Oscar de melhor produção internacional, “Deserto Particular” tem como protagonista um policial saído de Curitiba. Não pode ser apenas coincidência o fato de esses ingredientes remeterem à operação Lava Jato, iniciada na capital paranaense, determinante para uma guinada à extrema direita liderada por nomes ligados a forças de segurança.

Não há nenhum conteúdo político no longa-metragem de Aly Muritiba, já em cartaz nos cinemas, mas é possível fazer uma leitura mais profunda sobre o destino do personagem e suas consequências. Nesse sentido, é a obra que talvez mais se aproxime de um sentimento reinante no país, a respeito de algo ruim que tenha ocorrido e a necessidade de reparo, embora ainda sem saber como.

O sentimento é expresso em nossa relação com o policial Daniel (Antonio Saboia). Ele está sem rumo após ter participado de uma operação policial e se excedido, sendo afastado da corporação. Nunca saberemos detalhes do que ocorreu, tornando mais evidente a atmosfera de perplexidade que envolve a narrativa, que só se dissolverá, em parte, quando o personagem resolve mudar de rota.

Nessa tomada de decisão, transcorridos 30 minutos de projeção, finalmente acompanhamos os letreiros de “Deserto Particular”. É como se o filme começasse naquele momento, promovendo o desejo de apagamento. Os equívocos do passado precisam ser imediatamente exorcizados, o que só se efetiva por meio do amor, em seu sentido mais amplo.

Daniel viaja centenas de quilômetros entre Curitiba e Sobradinho, na Bahia, na busca de reconciliação com a outra metade do Brasil. Lá encontra Sara, mulher que representa uma visão oposta de tudo o que havia construído. É ela – diferente (para usar um termo inespecífico e não estragar a surpresa do filme), nordestina e pertencente à classe pobre e trabalhadora – quem conduzirá o policial nesse processo.

A escolha de Sobradinho como cenário do início dessa transformação é simbólica: uma cidade que foi realocada de lugar à força para a construção de uma usina hidrelétrica. Nas palavras de Sara, metaforicamente represa um rio de sentimentos prestes a explodir. Para Muritiba, é preciso fazer um caminho de volta, nem que seja para chegar a um lugar diferente, mas distante da falta de amor.