A casa estava cheia, lotada. O clima era inequivocadamente de festa, celebração. O que não foi necessariamente uma surpresa: afinal, o anfitrião da noite era ninguém menos que o Grupo Corpo, comemorando 40 anos de trajetória! Talvez por isso o atraso de 20 minutos para o início do espetáculo não tenha incomodado quem compareceu ao Palácio das Artes na noite dessa quinta-feira (6). E foi com um acorde pesado de guitarra que "Suíte Branca" teve início, para o deleite do público, que tinha olhos - e celulares! - direcionados ao palco.

A trilha composta por Samuel Rosa e seus companheiros do Skank supreendeu. Com ares de experimentação, a música fluiu em uma brincadeira de ritmos - ora lenta e, em outros momentos, mais acelerada (a ponto de poder se credenciar a dar a ambiência em um filme de ação). E os corpos comandados por Cassi Abranches acompanharam as nuances propostas pela banda mineira, correria e dançarinos ao chão nas partes mais tensas da música.

Cassi parece ter optado por não excluir alguns movimentos característicos da companhia dos irmãos Pederneiras, mas os pontos altos de sua coreografia foram os duos e solos, nos quais se arriscou sem medo, deixando sua assinatura. E foi assertiva. O solo da bailarina ruiva Andressa Corso, que parecia frágil diante de uma muralha branca que compunha o cenário, preencheu espaços e mostrou a força da dança que desafiava a gravidade. Tudo isso somado a uma beleza plástica que impressionou quem estava ali. Tanto que Andressa arrancou aplausos da plateia antes mesmo do final da apresentação.

A primazia do branco - inclusive nos biombos de acesso à coxia e nos figurinos (neste caso, mesclado a transparências) foi um prato cheio para música e coreografia "colorirem" o espaço. E voltando à música, essa teve vários momentos, de tensão à parte lúdica, com um som quase circense. Nos últimos cinco minutos, foi possível perceber o lado mais solar do Skank, com distorções da voz de Samuel e acordes suaves. E assim a primeira coreografia despediu-se um público visivelmente satisfeito, e já ávido pela segunda parte. 

 

Intervalo

O segundo momento da noite teve start após um intervalo de 15 minutos - a se lamentar o fato de boa parte do público ter retornado a seus assentos com um certo atraso. E o segundo presente da companhia para Belo Horizonte foi marcado por saudosismo e graciosidade. "Dança Sinfônica" mostrou perfeita sintonia entre a música do sempre competente Marco Antônio Gruimarães e os movimentos orquestrados por Rodrigo Pederneiras, que são velhos (e bons) parceiros. O citado branco da primeira parte deu lugar ao preto no figurino dos bailarinos e biombos, e vermelho por meio dos figurinos das bailarinas. O cenário, assinado por Paulo Pederneiras, tinha, ao fundo, uma imensa parede com 1.080 fotos - nenhuma chapa branca - de momentos das quatro décadas da companhia. Não era perceptível que se tratavam de imagens, claro, mas elas formavam um mosaico que dialogava com as cores propostas pela veterana figurinista Freusa Zechmeister.

O balé apresentou um compilado das 38 coreografias que constam no repertório do Corpo. Era quase um jogo de adivinhação, para os que acompanham fielmente o Grupo - e que não são poucos. A coreografia resgatou movimentos eternizados em espetáculos como "Triz", "Onqotô", "21", Bach" e tantos outros. Recurso também utilizado na trilha, executada com pela Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e os músicos do Uakti.

Destaques? Por exemplo, o sabor da memória e o lirismo do padede executado pelos bailarinos Edmárcio Júnior e Silvia Gaspar, sob flashes insistentes da plateia. Silvia, que faz jus ao apelido "cisquinho", parecia flutuar nos braços do bailarino. Um longo e bem executado duo a ser considerado como um dos pontos altos do balé, e que também levou o público a aplaudir. Para finalizar, apenas um canhão de luz em um bailarino. Um salto de Silvia no colo do componente, agarrando-o como se não quisesse que aquele momento findasse, e as luzes se apagam. Fim do espetáculo, um mar de aplausos, bravos e gritos. E um gosto de quero mais.