“Extensão puxada fraudulentamente para furtar energia elétrica”. No dicionário, assim aparece uma das definições para a palavra “gambiarra”, que, como comprovam os lexicógrafos, é 100% brasileira. A nossa capacidade para o jeitinho e o improviso extrapolou qualquer “gato” para ganhar um sentido positivo, especialmente no universo das artes.
 
Prova disso é a exposição “Maquinações – Artistas, Máquinas e a Invenção do Cotidiano”, que será aberta nesta terça, no Sesc Palladium. É gambiarra para ninguém botar defeito e, é bom que se diga, realizada por autênticos “gambió-logos” – neologismo para designar os que juntam essa característica do DNA dos brasileiros à arte eletrônica.
 
Não é difícil achar as raízes deste movimento, que cresce e recebe como parceiro, no exterior, outras manifestações similares, como o “Juggad”, na Índia, e o “Rasquache”, no México. A gambiarra como forma de arte nasceu aqui mesmo, em Belo Horizonte, há exatamente dez anos, com um coletivo de arte formado por Fred Paulino, Lucas Mafra e Paulo Henrique Pessoa (Ganso).
 
“Tudo começou com uma campanha publicitária para a terceira edição do Festival Arte.mov. Eu trabalhava como designer gráfico e criamos, juntamente com o Ganso e o assistente dele na época, Lucas, uma armadura com objetos descartados”, lembra Paulino, curador de “Maquinações”.
 
Ciência
A peça foi batizada “Armadura Gambiológica” e tornou-se a grande responsável pelo nome do coletivo – Gambiologia, espécie de Ciência da Gambiarra. “Ganhamos uma atenção muito legal a partir da campanha e começamos a fazer outras peças, sempre com essa ideia de gambiarra e baixa tecnologia”, registra Paulino, que virou “doutor” na matéria.
 
O artista viaja o mundo apresentando o conceito e hoje vive exclusivamente dessas gambiarras, como artista, curador e editor da revista “Facta”. Para ser gambiólogo, explica Paulino, é preciso gostar de materiais eletrônicos, novos e antigos, e não abrir mão da inventividade, além, é claro, de conhecer um pouco de parte elétrica. 
 
“É preciso dizer que a tecnologia antiga tem tanto valor quanto as mais recentes. O rádio, por exemplo, tem o mesmo valor que um smartphone”, compara o curador. Para ele, a tecnologia não estaria ligada ao tempo, mas sim à experiência. “O obsoletismo é uma imposição da indústria, uma maneira de incentivar o consumo”, pondera Paulino.
 
Na abertura, o cineasta Neville D’Almeida apresentará a performance “Corpo Utópico”, ao lado de Juliana Porfírio. Intervenção a partir de uma vestimenta eletrônica dotada de uma câmera e um monitor, que filma e reproduz as pessoas e as situações ao redor
 
Terceira mostra produzida pelo coletivo, a exposição acaba sendo uma viagem temporal sob o olhar crítico e irônico de hoje, geralmente subvertendo a função original das peças.
 
“Maquinações” ocupará diferentes espaços do Palladium, com obras de 15 artistas brasileiros e internacionais que permanecerão em cartaz até 2 de dezembro. 
 
O fato de os trabalhos do grupo serem expostos de quatro em quatro anos (a primeira foi em 2010, no CentoeQuatro, e levou o nome de “Gambiólogos”) se justifica por ser, de acordo com Paulino, uma produção complexa, de pouco apelo comercial, e feita de maneira independente, sem equipe fixa para realizá-lo, apesar de contar com artistas internacionais.<EM><QA0>
 
SERVIÇO
Exposição “Artistas, Máquinas e a Invenção do Cotidiano” – A partir de quarta, no Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1046), de 9 às 21h. Abertura na terça, às 19h. 
Entrada franca.
 
fred O curador Fred Paulino destaca a valorização do reuso ao invés do consumo
 
Derradeira obra
 
Paulo Henrique Pessoa, conhecido como Ganso, faleceu em junho, poucos dias após concluir a peça “Credo”, um dos destaques da exposição. “É como um trabalho de despedida”, observa o curador Fred Paulino, com quem fundou o coletivo Gambiologia, em BH.
 
“Ele deixou a exposição montada no Oi Futuro Flamengo, onde mostramos ‘Maquinações’ pela primeira vez. E buscamos reproduzir aqui da forma mais fiel possível, com a colaboração de Laura Potter, filha dele, e de Giba Macruz”, salienta.
 
“Credo” foi definido pelo artista como uma instalação seminal de colecionismo psicodélico. Com atuação na área criativa desde a década de 1970, Ganso foi um colecionador compulsivo de objetos e imagens, deixando um raro acervo como legado.
 
Na mostra de filmes que acompanhará “Maquinações”, com sessões em 23, 24 e 25 de novembro, estão programados filmes experimentais realizados por Ganso e parceiros, como o documentário “Encomenda ao Ganso”, com direção de Pablo Lobato. Serão exibidos ainda “Uma Onda no Ar” e “A Dança dos Bonecos”, em que fez a direção de arte.