“Ai Weiwei não é mais protagonista da arte chinesa, mas da arte mundial. Tem hoje o tamanho que Andy Warhol teve em seu tempo. Desconheço outro artista contemporâneo que possua tanto reconhecimento e engajamento”. A frase é de Marcello Dantas, criador e curador da mostra “Ai Weiwei – Raiz”, do icônico artista plástico chinês. Depois de estrear em São Paulo, a exposição inédita chega a Belo Horizonte, onde fica em cartaz, gratuitamente, desta quarta (6) a 15 de abril, no CCBB-BH. 

Considerada a maior realizada por Weiwei, a premiada mostra reúne cerca de 70 peças, entre célebres trabalhos e criações desenvolvidas a partir da relação do artista com a cultura e as tradições brasileiras.

Ai Weiwei

Obra "Forever Bicycles", que pode inclusive ser vista de fora do CCBB-BH, conta com 1.254 bicicletas encaixadas entre si

“Entendi que Weiwei tinha conseguido algo inédito, que é causar transformações sociais enquanto suas obras eram feitas. O processo artístico, em si, é um ativador social. Então, o convidei, em 2011, para pensar em um projeto para o Brasil. O interessante é que seria a exposição que abriria, em 2013, o CCBB de BH”, conta Dantas.

No entanto, cerca de um mês depois da conversa, Weiwei foi preso pelo governo chinês, em virtude de críticas ao regime ditatorial. “O projeto ficou congelado e, só em 2015, depois de quatro anos em prisão domiciliar, ele sinalizou que havia conseguido o passaporte de volta”, afirma o curador, lembrando que Weiwei se autoexilou em Berlim, na Alemanha.

Ai Weiwei

Engate de raízes de pequi-vinagreiro que forma uma escultura

“Mutuofagia”

Reativado o processo, o chinês começou profunda imersão junto a comunidades, artesãos e manifestações culturais. Isso resultou em novos trabalhos, feitos com recursos regionais como madeira, sementes, raízes, tecidos e couro. 

“Eu batizei esse processo como ‘mutuofagia’, que significa dois seres vivos comendo um ao outro. Diferente do canibalismo, é um jogo mútuo, em que um morde o outro. E foi o que aconteceu. Weiwei comeu o Brasil e o país também o comeu”, metaforiza Marcello Dantas. “A ideia resultou na imagem produzida na última semana do processo, que mostra Weiwei nu, como um porco, em volta das frutas brasileiras”, completa.

Ai Weiwei

“Obras de Juazeiro do Norte”, nomeou Weiwei o trabalho

Na Bahia

Outro trabalho que veio da imersão de Weiwei no Brasil é a série “Sete Raízes”, feita de centenárias raízes do pequi-vinagreiro, espécie de árvore típica da Mata Atlântica baiana atualmente em risco de extinção. 

“No Brasil, a intenção foi a mesma (da China), de buscar elementos culturais da história que se apagaram. Seja couro, raízes, madeira. Weiwei busca o que está embaixo da terra”
Marcello Dantas
Curador

Descobertos no meio da mata, em Trancoso, os resíduos foram selecionados e trabalhados por carpinteiros chineses e brasileiros. Outro destaque são as peças em couro, esculpidas por artesãos de Juazeiro do Norte (CE), que trazem frases sobre liberdade, poder e racismo utilizando o alfabeto armorial de Ariano Suassuna. 

“Eu digo que Weiwei é um re-enraizador. Ele foi criado em um campo de trabalhos forçados porque seu pai era um poeta e foi punido pela Revolução Cultural chinesa. Então, seu trabalho busca o resgate dessa memória”, explica Dantas. 

Ai Weiwei

Imagem do ápice da “mutuofagia”, termo cunhado pelo curador Marcello Dantas

Célebres obras traçam retrospectiva histórica do impactante trabalho do oriental

Antes de entrar no CCBB já é possível apreciar uma das obras mais conhecidas de Ai Weiwei, a instalação “Forever Bicycles”. Disposto na área externa, o trabalho traz 1.254 bicicletas idênticas, que se encaixam umas nas outras, formando uma estrutura construtiva impactante que evidencia o diálogo do chinês com a arquitetura. 

Ai Weiwei

Obra-prima recriada em blocos de Lego

Outro trabalho emblemático foi montado no pátio: trata-se da instalação “Lei da Viagem (Protótipo B)”, formada por um barco inflável de 16 metros de comprimento, que comporta centenas de figuras humanas, em alusão as refugiados.

Ao entrar no espaço da mostra, a primeira obra disposta é “Sementes de Girassol”, que mostrou ao mundo a capacidade de ativação social dos processos artísticos de Weiwei. 

“São 100 milhões de sementes de girassol, de cerâmica. Foram pintadas a mão, uma a uma, por 1.600 mulheres de uma cidade no interior da China. Essas mulheres ganharam renda, protagonismo internacional e respeito dentro da comunidade. Houve um empoderamento delas muito antes que o mundo conhecesse a obra”, conta o curador Marcello Dantas. 

O jogo de uma das obras-primas de Weiwei, a série “Deixando Cair uma Urna da Dinastia Han”, é destacado por Dantas. Tratam-se de três fotos que mostram o artista, jovem, jogando intencionalmente no chão uma urna cerimonial de cerca de 2.000 anos, da Dinastia Han, período da civilização chinesa. 

“Para a cultura ocidental é um sacrilégio quebrar uma antiguidade, ainda mais se quem a quebra é artista. Já na China, é uma cena corriqueira, pois foi exatamente o que a Revolução Cultural ensinou, que as memórias deviam ser apagadas. O tempo todo ele está brincando com os duplos sentidos”, explica o curador, revelando que, para a mostra no Brasil, a obra foi recriada em peças de Lego. 

“Weiwei mostra que para tudo existe uma arquitetura possível, uma forma de construir. Isso é uma das lindas sabedorias chinesas, a cultura mais ancestral de todas”, reflete.

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