Alex Flemming é de família luterana, em que o corpo é a imagem de Deus. Na Alemanha, onde o artista plástico paulistano de 63 anos reside atualmente, é costume tomar banho de sol nu nos parques. “A nudez é bela, não devemos ter medo dela. Não podemos abrir mão da beleza do corpo humano em nome de teorias medievais, pseudo-moralistas”, registra o artista plástico.

Logo na entrada de sua exposição “CORpo e Alma”, que será aberta amanhã, no Palácio das Artes, surgem imagens de homens e mulheres se olhando sem roupas, antes do ato sexual. Está longe de ser, segundo ele, uma provocação em relação aos recentes casos de censura à expressão artística no país. Mas Flemming tem uma posição muito clara sobre esses episódios.

“A arte é livre, com L maiúsculo. Convido as pessoas a visitarem mais os museus e conhecerem a história da arte, para não fazerem observações que são, na verdade, bobocas. É impossível ser contra o nu artístico”, critica ele, que ganhará, na Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard do Palácio das Artes, a maior exposição de sua trajetória, com a reunião de 150 obras.

No ano passado, o artista também mereceu uma grande retrospectiva no Museu de Arte Contemporânea, em São Paulo, com 130 peças. “A de Belo Horizonte não é maior somente na quantidade, mas também na abrangência, incluindo as séries dos tapetes voadores, dos animais empalhados e dos vidros da Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo”, compara.

Sobre duas retrospectivas de grande parte em tão pouco tempo, Flemming recorre a uma frase do seu falecido amigo, o escritor Haroldo de Campos, para quem era preciso que todo o artista, no meio da vida, fizesse uma “retroperspectiva”, para que “olhassem para trás e pudessem mudar (a direção) daquele momento em diante”. E é exatamente o que Flemming pretende fazer.

Giro no universo
“É importante o artista ser caudaloso e produzir muito. Obviamente, produzir muito bem. Mas também produzir de formas diferentes. E eu fiz isso a vida inteira. Cada série que faço é diferente no material, no suporte e no tema”, destaca o artista, que exibe uma carreira circular, “dando um giro no universo” e, ao voltar para o ponto de origem anos depois, apresenta uma nova perspectiva.

Temas como corpo humano, morte, solidão e sexualidade receberam diferentes olhares em 40 anos de carreira. Na primeira vez que abordou a morte, por exemplo, foi de maneira mais direta, tematizando Eros e Tanatos (vida e morte) com a série “Animais Empalhados”. Depois a retomou em “Computadores pintados”, apontando para a ideia de morte da tecnologia.

Flemming se diz um artista clássico no sentido “gostar da cor e assumir o belo”, até mesmo quando o assunto é a política. Chocado com a tragédia das Torres Gêmeas, em 2001, ele uniu Ocidente e Oriente ao juntar as silhueta de um avião à beleza dos tapetes persas. “Não é o caso de dividir Ocidente e Oriente, mas sim de juntar. Somos um só”, registra.

Alex Flemming De CORpo e Alma – De amanhã até 25 de fevereiro, no Palácio das Artes. De terça-feira a sábado, das 9h às 21h; aos domingos, das 16h às 21h.